São Paulo, domingo, 23 de julho de 2017 - 13:51.

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Universidade e deficiência visual - Baixa visão - Paulo Tadeu Meira e Silva de Oliveira.

Paulo Tadeu Meira e Silva de Oliveira.
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Nosso consultor:

Meu nome é Paulo Tadeu Meira e Silva de Oliveira, tenho 47 anos, nasci em São Paulo capital e estudei bacharelado, mestrado e doutorado em estatística no IME-USP aqui em São Paulo. Atualmente desenvolvo um projeto de pós doutorado financiado pela FAPESP no IPEN-SP, uma autarquia que fica dentro da USP em São Paulo, no Butantã. Pretendo seguir carreira acadêmica, e para isso, estou tentando concurso em alguma universidade para a área de Estatística.

Deficiência, limitações e possibilidades:

Minha deficiência é visual, do tipo visão subnormal ou baixa visão. Foi originada por toxoplasmose congênita. Minhas limitações atuais são principalmente pelo fato de enxergar muito pouco de longe e o que ajuda são aparelhos do tipo telelupas que ajudam a enxergar mais longe e aproveito a oportunidade para alertar sobre a importância da obrigatoriedade dos médicos notificarem a CID desses casos ao Ministério da Saúde visando um melhor desenvolvimento de programas de auxílio mais amplo para esses casos . Alerto também para a existência de casos mais complexos de toxoplasmose que deixam sequelas ainda mais graves.

Sonhos e percurso universitário:

Independentemente da deficiência, sempre estudei e os meus irmãos já estudavam também nessa época, o que ajudou um pouco. Embora os meus pais fossem muito pobres, sempre tiveram o desejo de que os filhos estudassem. É importante também deixar claro que antes de fazer Estatística na USP tentei cursar Medicina na UNB, em Brasília, na qual a possibilidade de inclusão foi difícil porque na época existiam por lá professores que acreditavam que a pessoa com deficiência visual não poderia estudar, quesó atrapalharia os outros e por fim resolvi fazer outra coisa que tivesse a ver com exatas, uma vez que antes de começar a faculdade tinha feito curso técnico em processamento de dados. Como sempre gostei de exatas voltei para essa área e entrei no bacharelado em estatística.

A dificuldade maior era a falta de infra-estrutura na universidade, pois para mim sempre foi difícil enxergar o quadro negro e sempre existiram pessoas que achavam que eu não teria condições e que deveria desistir, mas me mantive firme e não ouvi esse tipo de sugestão e terminei a graduação, em seguida fiz mestrado e doutorado.

Sempre que eu chegava à Universidade a recepção variava de professor a professor, mas na maioria dos casos tinha que estudar por livros ou por anotações de colegas que me emprestavam para tirar cópia.

Problemas encontrados e soluções propostas:

Para falar nas principais dificuldades devo voltar ao primário, onde vários colegas e pais de colegas eram de certa forma hostis, pois se eu levantasse para ver na lousa atrapalhava aqueles que estavam sentados que pediam para sair da frente. O que é pior é que estimulavam as outras mães e professores dizendo que eu não poderia ficar na escola e que eu deveria desistir. Naquela época era um pouco mais complicado, pois estávamos no início da década de 70, onde não se falava em inclusão dos deficientes como se houve falar nos dias atuais. O resultado disso era que existia pressão de muitas pessoas para me retirar, mas só que não acatávamos essa idéia, pois sempre quis estudar, sonhando com condições melhores de vida.

Na universidade o que me ajudou um pouco foi a presença de colegas mais solidários em termos de emprestar as anotações de aula para que eu tirasse cópia, muito embora isso ainda fosse longe do ideal, mas que de certa forma ajudava. Descobri também um tipo de telelupa que desconhecia na época da graduação e de outro tipo mais potente quando já estava no doutorado.

As virtudes de uma Universidade mais acessível:

Para que a Universidade tivesse sido mais amigável e inclusiva na minha chegada poderiam ter pensado em calçadas mais planas para que diminuísse os tropeços e na construção de rampas no lugar de escadas. Poderiam oferecer as leituras e material de apoio com letras ampliadas e também telas de ampliação. Poderiam ainda fornecer melhor treinamento aos funcionários sobre como lidar com uma pessoa com deficiência visual, pessoas em condições de informar quais os tipos de equipamentos e ajudas técnicas disponíveis não apenas na Universidade como também no mercado.

Alerto os dirigentes de Universidades para que vejam as estatísticas do Ministério da Educação, as quais apontam que cerca de 75% das pessoas com deficiência são analfabetas. Pessoas que desejam e merecem estudar, aprender com o mesmo objetivo de todos, quer dizer, melhorarem de vida. Assim, mais do que obedecerem a Lei, convido as Universidades a promoverem a inclusão e a acessibilidade às pessoas com deficiência por uma questão de responsabilidade social, mais do que isso, também uma autopromoção no sentido de serem vistas pelo mercado e pelos futuros estudantes como instituições que respeitam a diversidade e por isso dignas de serem escolhidas preferencialmente.

Mensagem aos colegas com a mesma deficiência:

Espero que outras pessoas que estejam cursando ou que desejem entrar na universidade não desanimem. Sabemos que é um caminho longo e difícil de trilhar, sendo necessário em muitas vezes lutar contra tudo e contra todos que não desejam sua presença ali, que impõem todos os tipos de dificuldades e problemas na tentativa de dissuadi-lo de seus objetivos.

No entanto, vale a pena quando chega o dia da formatura perceber que o seu nome está lá, que você conseguiu se formar e adquirir uma profissão seja ela qual for, mas que você possa se valer dali por diante. É muito gostoso também poder mostrar a todos que acreditavam ou não em você que pode até ser mais difícil, porém, com força de vontade e muita garra você também conseguiu.

 

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