São Paulo, quarta-feira, 23 de agosto de 2017 - 10:53.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

Universidade e deficiência visual - Baixa Visão - Norman Percival Joseph Davis Júnior.

Norman Percival Joseph Davis Júnior.
[ D ]

Nosso consultor:

Meu nome é Norman Percival Joseph Davis Júnior, tenho 39 anos, sou de Belém do Pará, me graduei em Serviço Social na Universidade Federal do Pará e atualmente curso uma especialização em políticas públicas na mesma universidade. Trabalho na UMS Bengui, Secretaria Municipal de Saúde
Email: norman_davis06@hotmail.com.

Deficiência, limitações e possibilidades:

A minha deficiência é a Retinose Pigmentar, que os médicos dizem ser congênita, embora eu anteriormente sempre pensasse que a adquiri com o sarampo aos três anos de idade.

Tenho baixa visão severa, grande dificuldade em enxergar à noite e só reconheço pessoas quando estão próximas. Por enxergar um pouco, tive grande dificuldade em me aceitar como deficiente visual (antes acreditava que deficientes visuais com direitos eram somente os cegos). Nem sempre ando com bengala, embora precise, só a utilizo à noite ou em lugares difíceis de andar. Costumo sofrer o que chamo de "discriminação às avessas", ou seja, algumas pessoas não compreendem porque eu tenho de usar bengala, pois não entendem que existem fases intermediárias entre quem enxerga e a cegueira.

Só consigo ler com uma fonte muito grande, tamanho 45, mas a minha visão cansa muito quando fico lendo muitas páginas em lupa eletrônica. Quando faço provas de concursos sempre peço um ledor, pois só a prova ampliada não ajuda. A lupa eletrônica, no meu caso, só seria recomendada para um local de trabalho, não para ler apostilas de muitas páginas. Consigo utilizar bem o computador, com o Sistema Dosvox e os ledores de tela (como o Jaws) que me possibilitam fazer muitas atividades, pois posso acessar os aplicativos do Windows.
No mais estudo, trabalho e levo uma vida normal.

Sonhos e percurso acadêmico:

Quando terminei o ensino médio, em 1991, não tinha grandes perspectivas de cursar a universidade, naquele tempo as pessoas à minha volta eram muito pessimistas, meu irmão dizia: "para que estudar, se depois a gente não arranja emprego". Eu só pensava em trabalhar e queria ficar só no ensino médio. Porém, era muito difícil arranjar emprego e a minha deficiência visual foi se agravando dos vinte e seis anos em diante. Foi com muita insistência que minha família conseguiu que eu me associasse na APPD (Associação Paraense de Portadores de Deficiência). Eu não percebia a gravidade do problema visual que tinha. Como a APPD inseria pessoas com deficiência no mercado de trabalho, eu me associei. Mas as empresas nas quais entrava sempre me devolviam para a associação, pois os órgãos público-privados ligados à prefeitura e ao governo do Estado tinham e ainda têm preconceitos contra cegos e pessoas com deficiência visual severa. O presidente da APPD e o funcionário responsável pelo encaminhamento dos contratos me aconselharam a tentar fazer um concurso público e cursar uma universidade, pois somente assim os deficientes visuais estavam se sobressaindo por meio de sua intelectualidade. Eu decidi seguir esse projeto, arranjei emprego de embalador em um supermercado com carteira assinada. Passei a frequentar a seção braille de uma biblioteca pública (Centur) e estudar com o material que eles tinham digitalizado para outros usuários (usava o Sistema Dosvox). Passei num concurso público como assistente administrativo de nível médio, larguei o emprego no supermercado (tinha trabalhado 1 ano lá). Estimulado pelos bibliotecários da seção braille do Centur me inscrevi no vestibular da UFPA e continuei estudando na seção braille e em casa (já tinha comprado um computador). Não me matriculei em nenhum cursinho, estudava somente com material digitalizado da seção e via programas que comentavam o vestibular na TV local. Passei no vestibular de 2004 para o curso de Serviço Social.

Ao fazer a prova do vestibular encontrei uma estrutura para receber os alunos deficientes visuais, com professores (cedidos de uma unidade especializada estadual), prova em braille, prova ampliada, prova digitalizada. Mas quando entrei na universidade não encontrei uma estrutura parecida para me receber, me senti abandonado no curso. Nenhum funcionário itinerante para ajudar na prova, ninguém para perguntar o que eu iria precisar ou que orientasse no tipo de prova que podemos fazer. Eu fazia as provas escritas utilizando lupa manual e com muita dificuldade. Em uma determinada prova eu tive que fazer tantas laudas que não conseguia mais enxergar as linhas do papel, então o professor pediu que uma aluna escrevesse o que eu ditava. Quando eu terminei o ensino médio, ainda enxergava bem, por isso não me acostumei a fazer provas fora da sala de aula. E foi assim durante toda a graduação, não conseguia fazer prova no computador fora da sala de aula. Não procurei a seção braille da UFPA para fazer as provas lá, só me sentia bem na sala de aula com os outros alunos.

Embora tenha tido todo um aparato para a realização da prova do vestibular, quando chegava à sala de aula já não tinha nenhum recurso de acessibilidade ou informação do que eu precisaria dos professores. Os professores só percebiam que eu tinha deficiência quando eu ia me apresentar a eles ou se chegasse com bengala na sala de aula. Não tinham qualquer informação de que materiais um deficiente visual necessitava ou de como lidar com ele. Alguns professores eram mais acessíveis e buscavam contribuir me emprestando livros ou perguntando como poderiam me ajudar. Geralmente quando os funcionários ou bibliotecários percebiam que eu tinha deficiência visual buscavam ser mais atenciosos. Na sala de aula, como sou um pouco tímido, fui me aproximando dos colegas aos poucos. No começo do curso já teve trabalhos em equipe, rapidamente entrei em uma e os colegas sempre me viram como uma pessoa inteligente e queriam me ter como parceiro. Acho que alguns alunos deviam me olhar com aquele olhar de caridade que não resolve nada, pois se afastam da pessoa e não contribuem em nada. Mas alguns colegas (Ana Carla, Alam, Caroline, Luciane, Isabel) se tornaram mais próximos e sempre formamos equipe de estudo juntos. Alguns deles continuam comigo na atual especialização que estou cursando.

Problemas enfrentados e soluções propostas:

Logo de início não senti muita dificuldade, pois os primeiros livros pedidos eu encontrei digitalizados na seção braille do Centur (já estavam escaneados e corrigidos. Naquele tempo eu ainda achava que a ampliação resolveria meu problema, mas comecei a perceber minha dificuldade com leitura de apostilas. Passei então a ter mais necessidade de estudar pelo Sistema Dosvox. Quando começaram a chegar novas apostilas, tive que procurar a seção braille da UFPA. A bibliotecária achava que eu poderia ler com lupa manual por ter baixa visão e sempre quando eu levava material para digitalizar, demorava muito e me atrasava nas matérias. E como ela sempre dizia para eu ler com lupa manual, isso me aborrecia. Fui me afastando cada vez mais da seção, digitalizando e corrigindo minhas apostilas e livros em casa, o que me dava muito trabalho. Quando não tinha o livro buscava em listas de trocas de livros digitais na internet.

Algo que me chamou muito a atenção foi uma reunião que tive com uma diretora junto com outros colegas deficientes visuais, ela tinha uma cara de espanto por eu poder olhar na direção dela. Talvez estivesse acostumada a ver os colegas deficientes visuais que não conseguem disfarçar suas expressões faciais e que demonstram através da mudança de postura seu desconforto com certas situações. Pensei, quando os que enxergam se reúnem os colegas cegos não conseguem perceber trocas de olhares, gestos e expressões faciais e assim os videntes podem se sobressair sobre eles nas reuniões. Em outra ocasião, em uma disciplina de pesquisa, precisei entrevistar uma professora responsável por um departamento que tratava de inclusão, descobri que ela não sabia que um aluno com deficiência visual podia estudar no computador, usar textos digitalizados, gravar entrevista e aulas com mp3. Ela só tinha conhecimento sobre deficientes auditivos.

Logo no início fui informado pela Liliane, uma colega cega que cursava sociologia, sobre o funcionamento da seção braille da UFPa, para a qual eu poderia levar meu material de estudo para digitalizar e corrigir. Como já disse logo no começo do curso já tivemos que formar equipe de estudo. Teve uma colega, a Ana Carla (que tem parentes cegos e com deficiência auditiva) que logo se aproximou de mim e sempre foi uma grande parceira de estudo, fizemos TCC em dupla. Eu sempre falava com os professores pedindo para eles me emprestarem livros para digitalizar. Alguns me emprestavam, outros não. Isso foi me cansando e eu já sabia que isso era obrigação da universidade, ou seja, cuidar do meu material de estudo e não eu ficar correndo atrás de cada professor que aparecia.

Eu falava com os professores pedindo livros emprestados e levava para a seção braille da UFPA para digitalizar. Como havia muita dificuldade na minha acessibilidade, comecei a convidar outros colegas deficientes visuais (Liliane e outros para nos reunirmos com a direção da biblioteca central a fim de discutir as dificuldades que tínhamos com os serviços da seção braille da UFPA. Depois que passei a conhecer a legislação sobre deficiência visual, comecei a fazer requerimentos para a pró-reitoria solicitando notebook para realização de prova na sala de aula e o cumprimento da portaria 3.284/2003 do MEC. Acho que teve algum resultado pois logo tivemos acesso a um regimento da universidade onde se referia sobre material pedagógico para alunos com deficiência. Passei a utilizar a legislação e o regimento e nós os apresentávamos na reunião com a diretoria da biblioteca central da UFPA. Mas como sempre eles colocavam dificuldade em tudo.

 Hoje os alunos com deficiência visual estão se reunindo com a pró-reitoria de ensino, onde contribuímos com informações para a melhoria de nossa acessibilidade e dos candidatos com deficiência visual que irão fazer o vestibular.

Virtudes de uma Universidade mais acessível:

Quando passei a frequentar a universidade para me matricular e também comecei a participar de outras reuniões, levei algumas quedas porque as calçadas eram altas e não tinha nenhum lugar onde se segurar. Agora já tem corrimões no meu centro e ajeitaram as calçadas, porém a iluminação da universidade à noite é precária. No caso particular dos alunos com deficiência visual, o material pedagógico adequado consiste em livros e apostilas digitalizados (escaneados e corrigidos), para serem ouvidos pelo aluno no computador através de softwares ledores de tela, ou para serem impressos em textos ampliados ou braille. Se tivéssemos os livros que os professores vão utilizar já digitalizados e corrigidos não teríamos tantos problemas.

Os alunos com deficiência deveriam receber acompanhamento especializado em suas Faculdades: Para isso a conscientização de professores e a capacitação de funcionários, assim como a produção de material pedagógico adequado, como diz no regimento daqui da UFPA. É muito constrangedor um funcionário ficar julgando quem ele vai atender na seção braille, todos são deficientes visuais lá.

Tenho a dizer aos administradores de instituições de ensino que tenham ou ainda terão pessoas com deficiência em seu corpo discente que não tratem alguém com baixa visão severa como se ela não fosse deficiente visual e não precisasse do mesmo atendimento que os alunos cegos. Para a lei somos tão cegos como os outros. Se eu fosse uma pessoa com baixa visão que tivesse capacidade de leitura nem procuraria atendimento especializado. Não precisamos de burocracia, mas de compreensão, temos o mesmo direito de ter os nossos textos em tempo real que os outros alunos ditos "normais". Não precisamos de desculpas de quem não quer fazer um serviço, nem do seu julgamento. Todos nós que somos usuários das seções braille ou outro atendimento oferecido, sejamos cegos ou com baixa-visão, somos deficientes visuais.

Mensagem aos colegas com a mesma deficiência:

Digo a você que não desista, vá em frente. Mas saiba que não se conquista nenhum direito sem luta e o que fizerem por você não é porque são bonzinhos, mas é porque outros alunos lutaram antes. E você deve ir em frente para que sua acessibilidade seja garantida.

 

Relatos e informações de nossos consultores.

 

Voltar ao topo da página.

Copyright © 2008 Livro Acessível.
Todos os direitos reservados.