São Paulo, quarta-feira, 23 de agosto de 2017 - 10:54.

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Universidade e deficiência visual - Cegueira - Liliane Vieira Moraes.

Liliane Vieira Moraes.
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Nossa consultora:

Meu nome é Liliane Vieira Moraes, moro em Brasília e sou graduada e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará, bem como Analista em Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq. Meu contato é: lv_moraes@yahoo.com.br .

Deficiência,  limitações e possibilidades:

Minha deficiência é cegueira total, adquirida na vista esquerda aos 16 anos (glaucoma) e congênita na vista direita. Esta deficiência me impossibilita, basicamente, ler obras em papel e a tela do computador sem o auxílio de programas adaptados (por meio de voz sintetizada). No entanto, quem não enxerga pode viver quase normalmente: exercer diversas profissões, praticar atividades físicas, constituir família de modo independente, viajar etc.

Sonhos e percurso  universitário:

O meu interesse de cursar universidade foi algo estimulado  por minha mãe, desde minha infância. A decisão da escolha da profissão foi algo que floresceu no ensino médio, período em que percebi, em meu comportamento e  preferências, uma enorme tendência pela área social, tanto em teoria como na  prática. A dúvida inicial nessa escolha deveu-se à incerteza sobre a existência  (ou não) de um bom campo de trabalho na carreira de cientista social. Ao  pesquisar acerca dessa área e encontrar mais de dezoito possibilidades de campo  de atuação, não tardei em escolhê-la.

Minha entrada na universidade foi cercada por inúmeras curiosidades, tanto minhas, para saber mais sobre a grade curricular do curso; quanto por parte dos colegas, que ficavam admirados em constatar uma pessoa cega aprovada no 6º lugar de um curso que teve 80 aprovados, sendo 79 deles sem deficiência. Minha mãe esteve comigo, desde o momento da inscrição no vestibular, até a conclusão da matrícula. Ela também sempre me ajudou a escanear livros, antes e depois de meu ingresso na universidade. Os demais membros de minha família não acreditavam muito na possibilidade de eu vir a cursar uma universidade federal, dada a imensa concorrência. Porém, com o decorrer do tempo e das conquistas adquiridas, eles passaram a acreditar que quase tudo é possível a uma pessoa cega.

Os professores me receberam na universidade com certa  preocupação, porém, sempre muito solícitos e abertos às sugestões que lhes  pudessem ser dadas, quanto à melhor forma de trabalhar com uma aluna com deficiência . Os funcionários também foram muito receptivos e auxiliaram no que lhes foi  possível. Os colegas, além de curiosos, tiveram um receio inicial de formar  equipe comigo, pois apesar de admirados por minha conquista, pensavam haver  alguma forma de alteração de critério ou "proteção" na seleção do  vestibular. Com o passar do tempo, porém, essa mentalidade foi sendo alterada  e, a partir do 3o ano, consolidei uma maravilhosa equipe de estudos.

Problemas encontrados  e soluções propostas:

As primeiras dificuldades que encontrei na universidade  foram quanto à acessibilidade dos textos , que não eram em formato digital ou em Braille e a incredulidade inicial dos colegas no que diz respeito ao meu desempenho  nos trabalhos em equipe. As  minhas primeiras providências para me incluir no curso foram conversar com os professores,  para que eles conhecessem minhas dificuldades e possibilidades, bem como para que interviessem junto aos alunos, para formarem equipes comigo. Também procurava contribuir com a equipe na qual estava, enviando textos que encontrava  na internet, debatendo os temas propostos, inclusive fora de sala de aula etc.

Com relação ao apoio da Universidade, quando eu estava no 3º  ano da graduação (em 2003) e era a única aluna cega da universidade, organizei uma reunião com a reitoria, envolvendo ex-alunos com deficiência visual, uma associação  de pessoas com deficiência e a direção de uma escola estadual especializada. Nessa reunião, apresentamos um documento contendo nossas principais  dificuldades e necessidades, tanto no que tange à acessibilidade, quanto aos  aspectos atitudinais de professores, recursos pedagógicos etc. Por meio dessa  intervenção, conseguimos duas bolsistas para a seção braile da biblioteca  central da universidade, as quais, juntamente com a bibliotecária, trabalhavam  na reprodução de textos para o braile e para o formato digital.

As virtudes de uma  Universidade acessível:

Para que a Universidade tivesse sido mais amigável e  inclusiva na minha chegada, os dirigentes poderiam ter promovido alguma intervenção De caráter atitudinal, uma vez que por lá já haviam passado alunos cegos em outros cursos como  Letras, Psicologia, Direito e Biblioteconomia. Também poderiam ter mantido  atualizados os programas com sintetizadores de voz, instalados no período em  que estes alunos cursaram suas graduações. Poderiam, por fim, terem preparado o  calçamento mais adequado em todo o campus universitário, uma vez que alunos  cegos já transitavam por lá.

Enfatizo a importância e a necessidade de participação dos alunos com deficiência nas discussões sobre qualquer forma de política, projeto  ou ações a serem pensadas e/ou implantadas visando à acessibilidade , pois ninguém  melhor do que esses atores sociais para descrever suas reais necessidades e indicar  as melhores providências para saná-las.

Mensagem aos colegas  com a mesma deficiência:

Se não estiverem ainda cursando uma universidade, deixo um estímulo, afirmando que é possível conquistar seu espaço, mesmo que isso necessite de muito esforço pessoal e familiar. Caso já esteja cursando, destaco a necessidade da pessoa com deficiência buscar se inserir nas discussões acadêmicas, políticas e pedagógicas acerca de tudo aquilo que for pensado ou implantado em seu benefício, pois somente nós, que possuímos deficiência, temos a real dimensão de nossas necessidades.

 

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