São Paulo, sexta-feira, 22 de setembro de 2017 - 10:34.

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Universidade e deficiência auditiva - surdez - Geni Aparecida Fávero.

Geni Aparecida Fávero.
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Nossa consultora:

Meu nome é GENI APARECIDA FÁVERO, tenho 60 anos. Nasci em Pederneiras, município do Estado de São Paulo. Conclui o curso superior - Licenciatura em Desenho e Plástica - e possuo Formação para o Magistério (Curso Normal).

Iniciei minha carreira profissional em 1974. Como desenhista realizei as seguintes atividades: execução de gráficos; cartograma, plantas, layouts de formulários e relatório para coleta e processamento de dados, além de outros serviços de desenho e arte final, bem como programas informatizados para a produção de estatísticas educacionais.

Trabalhei como Assistente Técnico de Ensino na Equipe Técnica Sócio-Econômica Demográfica e na Equipe Técnica de Informações Estatísticas do Centro de Informações Educacionais da Assessoria Técnica de Planejamento e Controle Educacional da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo.

Atualmente trabalho na Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, no cargo de Assistente Técnico, onde participo da elaboração de projetos, coordenação de cursos, levantamento de necessidades para pessoas com deficiência, bem como planejamento e execução de ações que viabilizem a inclusão e acessibilidade.

Ex-membro e ex Diretora da Administração da Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS), ex-secretária da CBDS e da Associação dos Surdos Mudos de São Paulo, representante do Conselho Municipal para Pessoa com deficiência.

Organizadora da I CONFERÊNCIA DOS DIREITOS E CIDADANIA DOS SURDOS DO ESTADO DE SÃO PAULO - I CONDICISUR – 2001- "Viva a sua diferença", que motivou a criação de Lei de Libras, Intérpretes e TV com Legenda Closed Caption.

Membro integrante do grupo de trabalho da ABNT para elaboração de projeto de Norma Brasileira de Acessibilidade na Comunicação.

Atualmente faz parte da diretoria nacional da Confederação Brasileira dos Surdos.
Site: www.cbsurdos.org.br Site externo.
Contato: geni.favero@gmail.com

Deficiência, limitações e possibilidades:

Sou portadora de surdez / neurossensorial profunda bilateral, possivelmente provocada por um problema congênito (de nascença) ou por sequelas de infecção. Aos dois anos de idade minha avó percebeu que eu era diferente de minha irmã, pois ela atendia aos chamados e eu não. Minha avó fez testes comigo, batendo palmas me chamando, e eu não virava para trás. Minha mãe me levou ao médico, que confirmou minha surdez. No inicio, o médico achava que poderia haver um problema mental, mas após os exames constatou minha integridade física e mental.

Sou oralizada e usuária de aparelho auditivo há mais de 30 anos. Antes, usava apenas um aparelho no ouvido direito, o que prejudicava na identificação do ponto de origem do som. Há cinco anos, com a recomendação de uma fonoaudióloga (Centrinho de Bauru - CEDALVI - Centro de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão), passei a fazer uso de dois aparelhos auditivos, o que normalizou meu sentido de direção de som. Esta bilateralidade é fundamental para a compreensão da fala e de outros sons que antes passavam despercebidos. Comparando "é como enxergar com os dois olhos". Posso dizer que os meus aparelhos e eu somos cúmplices de uma vida bem melhor e com isso estabeleço "relacionamento" com grande desenvoltura. Não tenho possibilidade de atender um telefone comum. Porém, graças aos aparelhos auditivos percebo minha voz, capto muitos sons e isto permite melhorar a minha fala.

Sonhos e percurso acadêmico:

Inicialmente pensei fazer arquitetura. Lia revistas Casa e Jardim e fui construindo o sonho de desenhar plantas e fazer decoração. Por motivos financeiros, fui aconselhada a cursar a Faculdade de Ciências com licenciatura em Desenho e Plástica. Minhas colegas me ajudaram a fazer a inscrição no vestibular. Formamos um grupo de estudos para a prova, com simulados de português, matemática e conhecimentos gerais. Fiz o vestibular, passei e me matriculei no período da manhã.

Viajava diariamente de Pederneiras a Bauru. Fiquei ansiosa no inicio das aulas, pois sabia das minhas dificuldades, já sentidas durante os cursos ginasial e normal. Os colegas avisaram os professores sobre minha deficiência. Eu me escondia, sentia vergonha em falar sobre ela. Sabia da dificuldade em falar, entender a leitura labial, bem como em me fazer compreender, pois fazia um verdadeiro esforço com a garganta. Dois professores me ajudaram, me colocando na fileira da frente, acompanhando meu desempenho e me dando atenção específica. Meus colegas deram muito apoio, ajudando a fazer tarefas em sala de aula e em minha casa.

Problemas enfrentados e soluções propostas:

Até os sete anos eu não sabia que era surda, sendo filha de pais ouvintes. Com cinco anos cheguei a frequentar o Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Pederneiras, junto com minha irmã e me perguntava como os outros compreendiam o que a professora estava tentando transmitir. Descobri que as pessoas se comunicavam através de sons, enquanto a minha comunicação era feita pela leitura dos lábios das pessoas, o que tornava a comunicação incompreensível. Meus pais tiveram contato em Pederneiras com um casal que informou sobre a existência de um colégio, o Instituto Santa Terezinha (IST), em São Paulo. O IST funcionava em regime de internato, uma instituição que há mais de 70 anos auxilia pessoas com perda auditiva, ensinam escrever, leitura labial, etc. O Instituto usava o método oral na educação dos surdos, só depois passou a desenvolver o bilinguismo, utilizado até hoje na sua proposta pedagógica. A língua de sinais só foi considerada como língua oficial dos surdos em 2002. Minha permanência na instituição, em regime de internato, me proporcionou ainda, a aquisição de novas aprendizagens e amizades. Somente quando passei a frequentá-la é que me dei conta de que tinha um problema auditivo e não era uma criança como as demais. A utilização da fala e dos gestos de linguagem que aprendi modificaram até mesmo minha personalidade, fazendo com que eu amadurecesse e me desenvolvesse em todos os sentidos. O estudo me modificou para melhor, e me tornou consciente da minha luta no cotidiano.

Fiquei interna no Instituto do seis aos dezesseis anos. Ali, para desenvolver a leitura e comunicação oral, não permitiam a comunicação por gestos. Hoje em dia, os meios disponíveis pelas novas tecnologias ampliaram minha possibilidade de comunicação, proporcionam pleno acesso às infindáveis informações existentes, me permitindo levar uma vida profissional ativa.

Quando entrei na faculdade percebi um novo mundo. Sentia medo, medo de ser considerada incapaz. Muitas colegas já eram velhas amigas da cidade e do ginásio e curso normal. Ajudavam-me emprestando cadernos, que eu levava para casa, me ajudavam na sala de aula.

Não entendia muitas aulas. Aprendi lendo, lendo, estudando muito, com muita dedicação e perseverança. Chegava a fazer leituras antecipadas para poder compreender a aula. No primeiro ano tirei a maior nota em psicologia, pois havia lido muito, principalmente Piaget.

Achavam que eu entendia tudo, mas eu escondia a não compreensão. Os colegas me procuravam, queriam me ajudar e eu também mostrava para eles um mundo novo.

Nas diversas escolas que frequentei, curso ginasial, normal e universitário, enfrentei muita dificuldade quando os professores ficavam de costas para escrever na lousa e falavam ao mesmo tempo, quando passavam de um lado para outro na sala, entre as fileiras de carteira, e eu não podia fazer a leitura labial. Faltava para o professor preparo para atender essa necessidade do surdo.

Virtudes de uma Universidade Acessível:

Dois professores na universidade me deram atenção especial, acompanhando meu trabalho em sala de aula. As disciplinas ligadas ao desenho técnico e perspectiva, matemática, que implicavam no fazer em sala de aula, facilitavam o acompanhamento do professor e minha compreensão. Como eram acompanhadas de linguagem visual, me estimulavam bastante. Em psicologia, com a ajuda dos livros, era mais fácil compreender. Já em outras disciplinas tive dificuldades.

Para que uma universidade seja mais acessível e inclusiva para pessoas surdas ela precisa disponibilizar legenda em tempo real, sensibilizar os professores preparando-os (com noções de LIBRAS) para lidar com esses alunos, oferecendo também intérprete de libras. Além disso, o mundo moderno oferece diversas tecnologias assistivas para maior inclusão e acessibilidade de alunos com alguma deficiência.

Mensagem aos colegas com a mesma deficiência:

A pessoa surda deve buscar informações e ter consciência de suas limitações e necessidades.

Deve buscar o apoio dos pais, familiares, profissionais, e solicitar a faculdade material de apoio, intérprete de LIBRAS, reforço e propor legenda em tempo real. Para isso devem manter-se atualizados assistindo televisão, vídeos, utilizando Internet para comunicar-se em rede, tomando consciência de seus direitos, possibilidade que o mundo moderno oferece, e reivindicar seus direitos, juntando forças entre os seus pares e na sociedade. A orientação é fundamental. O importante é oferecer à pessoa condições de atingir o mesmo nível de competitividade de uma pessoa sem deficiência. A criança necessita de assistência em tempo integral desde quando o problema auditivo é detectado, tanto no aspecto clínico como no social.

 

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