São Paulo, segunda-feira, 26 de junho de 2017 - 16:03.

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Universidade e deficiência visual - Cegueira - Cristiana Cerchiari.

Nossa consultora:

Meu nome é Cristiana Cerchiari , tenho 35 anos, e moro em São Paulo. Já dei aula de idiomas em escola pública e particular, para pessoas com e sem deficiência, além de ter atuado como tradutora e intérprete de maneira esporádica. As experiências vividas na área de planejamento educacional também foram importantes. Atualmente, sou orientanda da professora Dra. Vera Lúcia Marinelli, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, tendo como objeto de estudo a formação de professores e situações cotidianas nas aulas de línguas estrangeiras, envolvendo o professor de língua estrangeira e o aluno com deficiência visual incluído em sala de aula regular. Como sempre gostei de estudar e pude contar com o importante apoio de minha família, consegui cursar o Ensino Fundamental, o Ensino Médio e o Ensino Superior, sendo que meu desafio atual é concluir o mestrado pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Contato: cristiana.mello@gmail.com.

Deficiência, limitações e possibilidades:

Sempre que falo sobre deficiência visual, lembro-me de uma amiga já falecida, muito alegre, que detestava quando as pessoas perguntavam: "Você não enxerga nada, nada, nada?" Sua vontade era responder: "Não. Enxergo nada, nada, médio". Não se preocupe, leitor. Não estou com raiva de você. Sempre conversei numa boa com as pessoas sobre a deficiência visual, resultado de um parto prematuro (6 meses e meio de gestação). Ah, não enxergo quase nada: apenas luz e sombra, o suficiente para que eu desvie de obstáculos grandes como postes e bancas de jornal, sem precisar chegar até eles com a bengala.

A retinopatia da prematuridade, nome complicado da moléstia causadora da deficiência visual no meu caso, tem quatro graus, dependendo da quantidade de retina que foi descolada. Como apenas um pedacinho da retina do meu olho esquerdo não foi descolada, percebo luminosidade. Assim, sei a diferença entre o dia e a noite, claro e escuro, dia nublado e dia ensolarado, mas não vejo imagens nem vultos. A única limitação que a retinopatia trouxe foi o fato de eu não enxergar, o que acarretou maior dificuldade de acesso a material didático, por exemplo. Caso eu conseguisse ver imagens, necessitaria de material em letra ampliada.

Sonhos e percurso acadêmico:

E chegou o grande momento de escolher uma profissão, o que foi protagonizado por mim e pela psicopedagoga que orientou a escola particular na qual cursei o Ensino Médio e que, naquele momento, funcionou como uma espécie de orientadora vocacional. Depois de muito diálogo e reflexão, percebi que meu desejo era trabalhar com pessoas, não com máquinas ou corpos. Para decidir em que profissão com essa característica eu me encaixaria melhor, estabeleci critérios subjetivos. Estatística, por exemplo, que lembra Matemática, sempre um desafio na escola, era peso 2 no vestibular para Psicologia, o que me compeliu a descartar essa opção. Eliminei Pedagogia porque não estava disposta a orientar pessoas com problemas de aprendizagem. Era problema demais!

Passei no vestibular para Jornalismo, mas desisti porque a deficiência visual restringia muito as minhas possibilidades profissionais: eu não poderia trabalhar nem com fotografia, nem com editoração, nem com reportagem. (Já imaginou os estragos que eu ia causar correndo atrás de um famoso?. Hoje acredito que eu, além de algumas confusões, "apareceria" muito e obteria alguns benefícios devido à deficiência.) Mas voltando às minhas reflexões de adolescente prestes a ser adulta, achava que seria muito difícil estar na hora certa, no local mais adequado, no momento certo.) Vitória das impossibilidades vislumbradas pelos outros a meu respeito ou por mim mesma a meu próprio respeito. Creio ter tomado a decisão mais acertada, mais conveniente ao meu tipo tranquilo de personalidade e mais compatível com o meu gosto pela leitura e escrita: escolhi Letras (com habilitação em tradução), e Letras (espanhol e português). Fiz os dois cursos simultaneamente, um a passo de tartaruga, e o outro em ritmo bem mais acelerado. Obtive lucros acadêmicos (já que concluí os dois cursos com formação sólida) e prejuízos sociais (já que demorei oito anos para obter os dois diplomas do curso de espanhol, o que dificultou enormemente o pertencimento a determinado grupo de alunos, e a consequente vida universitária que ele proporciona). Era necessário plantar sementes para o futuro.

Problemas enfrentados e soluções propostas:

Em todos esses processos, contei com apoio incondicional, amoroso e substancial principalmente da minha família. No que tange à acessibilidade do exame vestibular, a FUVEST sempre foi pioneira, prevendo o atendimento às pessoas com deficiência no próprio manual do candidato. Assim, deveríamos fazer nossa inscrição na sala X, na data Y, no prédio Z, indicando que adaptações seriam necessárias. Indiquei a prova em Braille, a minha preferida. Questões dissertativas e de múltipla escolha, mapas, gráficos, as minhas respostas: tudo em relevo! Que maravilha! Foi só chegar no horário indicado, levando minha garrafinha d'água e uma barrinha de chocolate, sentar e responder as questões com o stress normal de qualquer candidato a um processo seletivo! Aliás, era um dia na primeira fase, e três ou quatro na segunda. Faz tanto tempo que é até difícil lembrar!

De qualquer forma, lembro perfeitamente de ter encontrado um conhecido que havia quebrado o braço direito e que, portanto, havia se tornado deficiente temporariamente, o que o obrigou a realizar a prova no mesmo prédio que eu. Algumas vantagens de concentração das pessoas com deficiência permanente ou não em um espaço único incluem agregar recursos humanos especializados e recursos materiais muitas vezes escassos e garantir o efetivo atendimento das necessidades individuais. A experiência com as outras universidades foi bem diferente, mais relacionada à abertura de caminhos e ao desgaste emocional que a direitos do cidadão. Meus pais utilizaram sua vasta experiência na área jurídica para auxiliar-me na redação e preenchimento de requerimentos, formulários, solicitações... Gastou-se muito papel, mas conseguimos garantir o meu direito à prova em Braille, sem a intervenção de ledor.

Você já se imaginou prestando um exame vestibular de 30 ou 40 páginas para Letras, em que disciplinas como português e inglês têm peso 2, e alguém ficar lendo tudo para você? E se você tiver dúvida quanto à pronúncia de uma palavra? E se o ledor não falar bem inglês, apesar de ter formação na área? Será que ele poderá descrever as imagens impressas, que muitas vezes conduzem à resposta correta? Se os candidatos sem deficiência sabem que terão a prova impressa, leia-se em papel, no dia da prova, por que o candidato com deficiência é muitas vezes obrigado a lutar para obter sua prova no formato que mais atenda às suas necessidades e corresponda ao seu perfil? Todas essas indagações passavam (e ainda passam infelizmente) pela minha cabeça. Ainda há muito a ser feito.

As recordações do início das aulas são esparsas e não são desagradáveis. Acredito que a facilidade de comunicação me ajudou logo a fazer amizades e a entrar nos grupos para fazer trabalhos. Ainda assim, continuei contando com a parceria incondicional e irrestrita da minha família. E vai solicitação para compra de CD-ROM para laboratório de Informática, para que eu pudesse cursar os dois semestres da disciplina em igualdade de condições com meus outros colegas que enxergavam normalmente; e vem resposta negativa da Faculdade, creio que por resistência a mudanças, já que o custo do CD-ROM era cerca de R$300,00! Isso mesmo: apenas trezentos reais! E realizam-se reuniões que criam, finalmente, um núcleo para pessoas com deficiência na faculdade! Vitória da insistência. Continuou também a batalha por material didático em formato acessível junto à fila da Xerox, aos professores, à dona da papelaria, que muitas vezes vendia um livro para que eu pudesse estudar, e emprestava outro para que uma pessoa (geralmente remunerada) transcrevesse o material para o Braille.

Você pensa que fiquei de fora dessa? Nem pensar! Coloquei a mão na massa e copiei muito texto, letra por letra, datilografando tudo na minha querida máquina braile Perkins, que tenho e uso até hoje. E viva quem me ditava os textos! Tinha até uma amiga da minha tia que se ofereceu para ditar textos em francês, que tive três anos e meio na faculdade. Com sol ou chuva, ela uma vez por semana ia e voltava de ônibus, só para me ajudar. Graças a ela, aprendi muito sobre a Ortografia e a pronúncia da língua francesa, podendo traduzir os textos copiados desse idioma para a língua portuguesa, sem dever nada a meus colegas que enxergavam. Muito obrigada, querida amiga! Nunca esquecerei o quanto você me ajudou. Computador? Nada, ou quase nada. O máximo que se conseguia era digitar textos sem qualquer retorno de sintetizador de voz.

Virtudes de uma Universidade acessível:

Para que se tornassem mais acessíveis e amigáveis às pessoas com deficiência visual, as duas universidades poderiam ter colocado piso podo-tátil, o que teria facilitado muito meu deslocamento dentro e fora dos prédios. Além disso, poderia haver semáforos sonoros em frente às faculdades, para que se criasse a cultura de respeito ao outro no trânsito. Aliás, seriam necessárias campanhas permanentes na mídia e em todos os espaços educacionais (museus, escolas, faculdades, universidades, etc.). Deslocar-me nos arredores das faculdades (principalmente passar por barzinhos com mesinhas na calçada) continua sendo um desafio. É difícil dividir minha atenção entre tantos estímulos sonoros: veículos motorizados na rua, pessoas conversando, música tocando. Os obstáculos físicos como orelhões, veículos estacionados na calçada, mesinhas, postes, degraus, espaços muito amplos (como entradas de postos de gasolina), pessoas em pé na calçada, buracos e degraus também merecem muita atenção. Caso contrário, adeus cabeça, ombros, braços, pernas e até bengala!

Se não fosse minha família, eu estaria "na roça", como dizem. Não teria nem um diploma! É certo que o poder público fez parcialmente a sua parte, principalmente no Ensino Fundamental, mas muito mais poderia ter sido feito, sobrecarregando menos meus familiares e causando menos stress a mim. Perseguir material em formato acessível (Braille, letra ampliada, CDs e fitas cassete de áudio, e formato eletrônico) desgasta qualquer pessoa.

Penso que deveriam ser criadas histórias em quadrinhos que retratassem as realidades das pessoas com deficiência, sua luta e suas conquistas. Defendo também a participação efetiva de pessoas com deficiência em um número cada vez maior de espaços (culturais, educacionais, laborais, de lazer, etc.). Só assim poderemos combater, desconstruir e finalmente derrubar as barreiras atitudinais, felizmente menos numerosas na minha vida do que as experiências positivas. Acredito que o preconceito mais difícil de ser desconstruído relaciona-se às atitudes veladas, ao desconhecimento dos próprios preconceitos, e à falta de humildade em reconhecer que nunca sabemos tudo. É difícil identificar sua existência, e a pessoa atingida sempre fica cogitando se ele é real ou imaginário.

Mensagem aos colegas com a mesma deficiência:

É fundamental que todos participem e interajam em todos os espaços possíveis e imagináveis, dentro e fora de associações para pessoas com deficiência. Lembro-me com carinho dos aplausos na formatura da faculdade, dos ex-alunos que reencontro e com quem já perdi o contato, dos professores, colegas de classe e funcionários que tiveram atitudes inclusivas, dos conhecidos que se transformaram em amigos, e dos inúmeros sacrifícios financeiros, materiais, emocionais e fraternais feitos por minha família para que eu pudesse ter o melhor que eles podiam oferecer. Acima de tudo, lembro-me da vitória do diálogo e do amor em todas essas situações.

 

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