São Paulo, sexta-feira, 22 de setembro de 2017 - 10:23.

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A chegada, eu era um iludido e não sabia.

Dei o título a este texto lembrando-me de como fui ingênuo ao procurar a Universidade São Marcos para fazer a minha matrícula, após ter ligado algumas vezes para a administração da instituição esclarecendo a minha condição de pessoa com deficiência visual e perguntando se eles tinham algum tipo de adaptação para minha entrada no curso.

Os atendentes eram muito solícitos, sempre dizendo que tinham uma pessoa chamada Adriana que era a responsável pela recepção e apoio aos alunos com deficiência visual, ela também era cega, e ainda tinham uma Professora chamada Ana Maria, coordenadora de acessibilidade para pessoas com deficiência na instituição. Com essas informações eu segui confiante para fazer a minha prova vestibular e tentar me tornar mais um dos calouros do próximo semestre no curso de psicologia.

Eu já deveria ter desconfiado logo no vestibular quando cheguei para fazer a prova e o que me aguardava, no lugar de um computador adaptado, naquela época eu já utilizava o DOSVOX (*), era um professor, me avisando que a prova não estava adaptada e que ele seria o meu ledor oficial. Apesar de chateado, acabei fazendo a prova daquele jeito mesmo, sem desconfiar que dali por diante as coisas fossem se complicar cada vez mais.

No primeiro dia de aula quem disse que eu consegui achar a tal Adriana? Aliás, eu poderia ter ficado procurando por ela até hoje dentro do campus, pois em cinco anos posso dizer que se a encontrei uma ou duas vezes estarei exagerando. Portanto, nada de Adriana, nada de Ana Maria, nada de alguém para me orientar em alguma coisa. Fui seguindo para a sala de aula, com a ajuda de um amigo que me deu carona, porque também não tinha nenhuma identificação tátil nas portas das salas e consegui chegar para a tão esperada primeira aula.

Início das disciplinas, início das leituras, que leituras? Onde estão os meus textos adaptados em formato digital? Trazia meu notebook a tiracolo, pois havia dito que não sabia ler Braille, uma característica de pessoas que perdem a visão ao longo da vida adulta - se quiser saber mais pode entrar no link "Saiba por que a maioria dos cegos não usa o Braille" na seção "Livro acessível". Mas enfim, não tinha leitura digital alguma, eu ficava como um verdadeiro satélite fora de órbita dentro da sala quando os professores diziam: "hoje vamos trabalhar o texto tal".

O pior de tudo é que nem ao menos os professores tinham sido avisados da presença de um aluno com deficiência visual na sala. Claro que não estou defendendo aqui que se anunciem a chegada de um aluno diferente ao som de trombetas, mas o mínimo obrigatório seria avisar o professor que ele teria um aluno cego na turma e que precisariam conversar sobre algumas adaptações na sua didática ou material de apoio, no mínimo isso.

Assim, aos poucos fui "caindo na real", fui constatando que estava sozinho ali dentro e precisaria usar minha criatividade e redobrar minha motivação para que pudesse levar as coisas adiante. Claro que aos poucos fui me enturmando e aquilo que seria obrigação da instituição prover, foi substituída pelos colegas que fui conhecendo e me aproximando durante o curso. Ao menos no início, se não fosse a ajuda deles, também de alguns professores extremamente voluntariosos e conscientes das dificuldades impostas pelos ambientes e materiais inacessíveis, confesso que seria muito difícil ter continuado em frente.

Mas enfim, essa foi a minha recepção no mundo acadêmico após ter perdido a visão, pois já cursava análise de sistemas antes de ficar cego. Um verdadeiro choque ao constatar que aquele ambiente antes tão agradável havia se tornado completamente inóspito devido a minha condição de pessoa com deficiência. Um ambiente e atitudes que me deixavam muito claro que ali não era o meu lugar. No entanto, no lugar de me resignar e conformar com essa mensagem subliminar fui à luta para tentar transformar essa lógica perversa e excludente. Se quiserem acompanhar esse percurso fiquem a vontade.


(*) O DOSVOX é um software desenvolvido e constantemente aperfeiçoado pelo Projeto DOSVOX, dentro da UFRJ, e que tem a finalidade de tornar o computador mais amigável e acessível às pessoas com deficiência visual, pessoas cegas e com baixa visão. Ferramenta excelente para aquelas pessoas com deficiência que estão iniciando seu contato com os computadores. Para saber mais, veja o link do projeto em nosso setor de sites recomendados.

 

Como se desenvolveu a luta por inclusão e acessibilidade na Universidade São Marcos.

 

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