São Paulo, domingo, 24 de setembro de 2017 - 19:49.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

Denunciando a Universidade ao Ministério Público Federal.

No limite máximo de minha paciência e mobilizado por puro instinto de sobrevivência, esgotadas todas as tentativas de acordo pacífico, não tive outra Saída a não ser representar denúncia, colada abaixo, junto ao Ministério Publico Federal, sede de São Paulo, contra a Universidade São Marcos. A mesma coisa fiz também junto a CORDE, Coordenadoria Nacional para a Integração das Pessoas Portadoras de Deficiência. Mandei a mesma denúncia aos dois órgãos, na esperança de que alguma delas fosse atendida.


São Paulo, Agosto de 2004.

Ao Ministério Público Federal
A/c: Exmo(a). Sr(a). Procurador(a) da República, Coordenador(a) do Núcleo Cível da Procuradoria da República em São Paulo.

Exmo(a). Procurador(a),

Meu nome é Naziberto Lopes de Oliveira, sou brasileiro, casado, estudante universitário, portador do RG:, e do CPF:, residente e domiciliado à Rua, venho, por meio desse instrumento de denúncia, expor-lhe os seguintes fatos que passo a narrar.


Preâmbulo:

Como disse acima, sou estudante universitário e curso o sexto período de psicologia na Universidade São Marcos, localizada a Rua Clóvis Bueno de Azevedo, 176, no bairro do Ipiranga - São Paulo/SP (campus João XXIII, de psicologia). Universidade essa que possui mais seis campus espalhados pela cidade de São Paulo e interior do Estado, na cidade de Paulínia.

Faço parte de um grupo, conhecido por "CONSCEG" - Conselho de Cegos da Universidade São Marcos, criado no início desse ano de 2004, evidentemente pela afinidade de interesses e problemas, um grupo constituído por seis pessoas, todas portadoras de deficiência visual (cegueira total ou parcial, congênita ou adquirida, que nos unimos para reivindicar dessa instituição de ensino o cumprimento das leis de acessibilidade que constam da Portaria de No. 1679 de 02/12/1999, do Ministério da Educação, que determina as normas de acessibilidade a serem seguidas por instituições de ensino superior que tenham em seus quadros de alunos, pessoas portadoras de deficiência em geral, particularmente em nosso caso, os deficientes visuais.

Esclareço, porém que citei o grupo apenas para dar um panorama mais amplo da problemática que explanarei abaixo, deixando claro que não é apenas um problema individual que me traz aqui, apesar de que, caso o fosse, também seria digno de denúncia e preocupação, mas percebo que o problema se torna ainda maior quando envolve mais pessoas e, por isso, fica mais evidenciada a questão do preconceito e descaso para toda uma classe de pessoas vistas como "diferentes". Todavia, não posso envolver o restante do grupo em minha denúncia, porque todos nós temos bolsa de estudos, e os outros têm muito medo de perder essa concessão.

Portanto, Exmo(a). Procurador(a) rogo que não considere o grupo como denunciante, mas apenas eu, que caso sofra represálias por parte da Universidade, darei um jeito para continuar estudando, por lá ou em outro lugar.


Histórico do problema:

Iniciei meus estudos na Universidade São Marcos há quase três anos, mais propriamente em Fevereiro de 2002. Antes de iniciar o mesmo, passei por todos os requisitos legais para essa entrada, ou seja, inscrição, vestibular e matrícula, nas quais, em todas as etapas desse processo, fiz notar minha preocupação em adentrar um Mundo desconhecido, até então, e a angústia de não ser um Mundo acessível, um Mundo impenetrável e inamistoso.

Bem, mas as informações que obtinha, junto à instituição, durante todo tempo é que não devia me preocupar e que tudo daria certo, o que me fez pensar (inocentemente), que esse mundo desconhecido já estaria pronto para me receber de braços abertos.

Quando, pareço irônico, ao dizer a palavra "inocentemente", não o faço à toa, mas sim explico que em virtude de minha deficiência visual ter sido fruto de um acidente de trabalho, que me deixou anos afastado de qualquer tipo de instituição de ensino, afinal estava cuidando da depressão decorrente dessa perda visual e, nesses casos especificamente, o Exmo(a). Procurador(a) certamente entende que acabamos nos afastando de tudo, fechando-nos em nós mesmos na busca de uma reintegração e a volta para a realidade nua e crua do dia-a-dia e isso levou muitos anos. Sendo assim, fui "inocentemente" mesmo, pensando que a realidade era completamente outra da que encontrei.

Outra coisa que me dava um determinado alívio foi o fato de saber que na Universidade São Marcos, existia uma certa "jurisprudência", mesmo sabendo que esse termo é de uso do Direito, aproprio-me dele para explicar que fiquei sabendo da existência anterior de outros alunos também portadores de deficiência visual e isso me indicava que se eles estavam lá seria porque teriam condições de estar, ou melhor, que a Universidade os recebia a contento. Outra informação, ainda por parte da São Marcos, foi a de que existia uma pessoa predeterminada para auxiliar as pessoas deficientes visuais, inclusive sendo também uma ex-aluna deficiente visual que havia cursado pedagogia.

Com isso, o Exmo(a). Procurador(a) deverá perceber que tudo indicava para uma inclusão bem feita e tranqüila. Pois bem, ledo engano o meu, tudo não passava de propaganda enganosa, de falsas pistas que me levaram a acreditar numa Universidade utópica. Não demorou muito para que eu conhecesse toda verdade, inacessibilidade, descaso, abandono e desrespeito aos meus direitos de aluno e principalmente de cidadão brasileiro e cumpridor de meus deveres.


Inacessibilidade total:

Passo a narrar a seguir o quadro que encontrei junto a Universidade São Marcos que me fizeram ao longo desse tempo, esgotar todos os meus recursos psíquicos, emocionais, morais e físicos na tentativa de conseguir acesso normal, a pelo menos o conteúdo que todo aluno "vidente" tem acesso naquela instituição.

Inicialmente não existe a "sala de apoio" recomendada pela Portaria citada no início deste documento, que é extremamente necessária para que um aluno como eu possa integrar-se à instituição de ensino que pretende nos acolher. A estrutura física da Universidade não permite que um aluno deficiente visual se localize dentro dela, pela falta de referências, sinalização vertical ou horizontal nas paredes ou no chão, como pistas táteis, placas em código Braile nas portas das salas e banheiros, além dos laboratórios, e todos os outros recintos da Universidade como um todo.

Somos obrigados a ter uma verdadeira "memória de elefante" e decorar todos os pontos da dita instituição, caso contrário ficaremos perdidos sem saber para onde ir, coisa que os alunos "videntes", mesmo que estejam chegando pela primeira vez no local, tem total independência, afinal existem inúmeros cartazes e placas nas portas de cada sala e cada recinto da mesma, obviamente escritas em formato gráfico.

Os professores não são avisados com antecedência, da existência de pessoas "diferentes" em suas turmas, fazendo com que os mesmos recebam de sobressalto a notícia, dada por nós mesmos, forçando que os mesmos tenham que se adaptar às pressas e nada agradável ambos os lados, o que nos faz sentir o foco de atenção da sala, nos faz sentir esquecidos e ignorados pelo sistema. Quando esses professores são avisados, a coisa funciona mais ou menos assim: "vire-se para incluir tal aluno", ou seja, o peso, a responsabilidade é jogada apenas sobre as costas dos professores. Observo porém que não estou colocando a culpa por essa situação apenas sobre os ombros dos professores, que em sua maioria, sempre se desdobram para tentar nos incluir e nos integrar junto à sala, mas é uma coisa impossível de ser feita às pressas e de improviso.

Os eventos que acontecem a todo o momento na Universidade são de total desconhecimento para nós, os deficientes visuais, afinal são expostos em cartazes gráficos, todos os seminários, os encontros, as palestras, os cursos complementares, os estágios oferecidos por empresas diversas, as comunicações de âmbito administrativo da Universidade, os folders criados pela instituição e uma infinidade de acontecimentos que devem ser de fundamental conhecimento para que um aluno se integre e participe do universo acadêmico. Mesmo alunos como eu, por exemplo, que tem conhecimentos de informática, não conseguimos nada, afinal, até mesmo o "site" de toda Universidade é completamente inacessível aos leitores de tela que possuímos.

A não ser pela extrema solidariedade dos amigos de sala, quando se lembram, de nos comunicar tudo o que descrevi acima, ficamos a parte de tudo que acontece por lá.

Uma das coisas mais graves que acontece na São Marcos é a total falta de conteúdo bibliográfico que são obrigatórios num curso de qualidade, como se pretende ser o nosso. No momento de minha chegada na São Marcos, não existia uma página sequer de livro em formato digital, que é o mais conveniente ou mesmo em Braile, apesar de tantos deficientes visuais já terem freqüentado aquela instituição. Esclareço que "página digital" é o resultado da digitalização de um livro qualquer, através da utilização de um "scaner", aparelho que consta da lista de exigências da Portaria do MEC. Nem mesmo os textos corriqueiros utilizados pelos professores, constantes no xérox da Universidade, disponíveis a todos os alunos que enxergam normalmente, nem mesmo esses pequenos textos, na sua maioria um ou dois capítulos de livros da bibliografia, estavam preparados seja em formato Braile ou formato digital.

O Exmo(a). Procurador(a) deve imaginar o que acontece com uma pessoa que, por ventura não enxergue, ao escutar a seguinte frase, proferida diversas vezes por um professor em sala de aula que é a seguinte: "o texto da aula de hoje está disponível no xérox, podem ir até lá e tirem uma cópia", outra mais ou menos assim: "o livro para que possam confeccionar esse trabalho que solicitei , para a próxima aula, está na biblioteca, procurem por lá e utilizem-no" e ainda outra mais ou menos assim: "utilizem a biblioteca, sem biblioteca não tem academia, não tem conhecimento", todas essas frases que eu já estou cansado de escutar, diariamente por lá. Essa pessoa ficará certamente, na dependência de algum amigo de sala ter paciência e tempo de ler o texto ou então o livro para ela, caso isso não aconteça, ela terá que ter pais, ou irmãos, ou amigos, vizinhos, enfim, que possam ler para ela aquele material solicitado. E como fica a obrigação da Universidade?

Outra coisa que devemos citar, nessa denúncia, para não parecermos defensores apenas dos direitos dos deficientes visuais, mencionamos a total irregularidade das rampas e formas de acesso a uma pessoa deficiente física, como muitas que se encontram por lá. As rampas não são acessíveis, ou seja, segundo uma pessoa amiga que é paraplégica, caso ela tenha necessidade de utilizar um banheiro, mal adaptado que existe num piso inferior ao de sua sala, ele não conseguirá retornar, pois ele não consegue subir a rampa sozinho. As salas de aula, em muitos casos, são providas de um degrau de acesso, o que faz com que essas pessoas tenham de ser carregadas por colegas de turma ou então por seguranças da Universidade. São corriqueiros os momentos em que presenciamos o tremendo constrangimento de pessoas que precisam ser carregadas no colo de outras, para conseguirem alcançar os diversos pisos da Universidade, um quadro realmente deprimente em todos os aspectos.

Em resumo, nesse ponto, procurei dizer sobre a importância do todo numa Universidade que pretenda ser de qualidade para seus alunos. Não podemos ficar dependentes apenas e exclusivamente das notas de sala de aula, que mal ou bem, acabamos conseguindo registrar, graças ao auxílio de nossas próprias ferramentas de apoio, como gravadores, regletes e atenção concentrada, mas sim precisamos contar com toda uma série de informações que passam pelo ambiente universitário, a biblioteca e a interação da Universidade com o os alunos. Nossos amigos deficientes físicos, não podem continuar a serem constrangidos e desrespeitados em sua privacidade e intimidade, ao serem transportados de braço em braço, colo em colo, como pacotes, por estranhos diariamente. Somente assim, poderemos dizer que estamos realmente estudando e tendo chances de aprendizagem igual a todos.


Maquiando os problemas:

Apesar do descaso e do desrespeito para conosco, os dirigentes da Universidade São Marcos , não são inocentes ou ignorantes para com as leis, afinal eles procuram manter uma espécie de maquiagem em alguns pontos estratégicos para o caso de uma eventual fiscalização por parte do Ministério da Educação. Vou informar ao Exmo(a). Procurador(a) quais são esses pontos, pois afinal, certamente eles procurarão fazer o mesmo com essa procuradoria e o desconhecimento dessa falsa realidade, pode induzi-los a um erro de avaliação.

Primeiramente o MEC solicita a criação de uma sala de apoio contendo os equipamentos necessários ao pleno desenvolvimento dos alunos portadores de deficiência visual, pois bem, eles colocaram uma mesa inadequada, um computador defasado e com um software de versão ultrapassada de leitura de telas "virtual vision", que não permite o nosso acesso a nem mesmo o "site" da própria Universidade, tão pouco a página da biblioteca.

Ao lado dessa máquina, existe um "scaner" que está fora de funcionamento, por motivo de defeito, há dois anos, mas ele continua ali, fazendo figurativamente o papel de equipamento útil.

Com relação ao conteúdo bibliográfico, depois de várias investidas minhas, solicitando, cobrando e por fim, mostrando-lhes a lei e a respectiva portaria, a Universidade deu início há dois anos, ao que eles chamaram de campanha solidária que recebeu o nome de "doe um capítulo, conte uma história". Campanha essa ineficiente que depois de todo esse tempo de existência, não conseguiu produzir sequer um livro completo em tempo real para nosso uso. Os poucos que foram produzidos, não eram mais necessários quando ficaram prontos.

Isso, pelo que percebo, fica caracterizado como uma imensa inversão de responsabilidades, ou seja, a Universidade, simplesmente abstêm-se de cumprir com suas obrigações que é nos fornecer o material necessário e joga isso sobre as costas da sociedade em geral para que ela resolva. No entanto, uma campanha dessa, pode encobrir, aos olhos do MEC e de quem não entenda o contexto geral, o problema da nossa falta de conteúdo bibliográfico, uma vez que, aparentemente procura uma solução, simplista e inviável, diga-se de passagem, para o problema.

Com relação aquele apoio, dentro da instituição, por parte de uma pessoa, uma pedagoga formada pela Universidade São Marcos, é totalmente insuficiente, incapaz de suprir com dinamismo e eficiência as necessidades do dia-a-dia requisitadas por nós alunos deficientes visuais. Apesar da boa vontade dessa pessoa, o trabalho é lento e não abrange a totalidade e a especificidade de cada um dos alunos deficientes. Mesmo assim, isso também pode ser citado, numa eventual fiscalização, como um serviço fornecido pela instituição, serviço esse precário e ineficaz.

Outro ponto que poderá ser mencionado pela Universidade é a criação, recentemente, mais ou menos em Maio último, de um grupo para discussão da acessibilidade de pessoas com necessidades especiais. Citamos que é mais uma forma de ganhar tempo e de "ir tapando o sol com a peneira", pois é um grupo que tem muitas pessoas, mas nenhuma proposta concreta, definida e clara, apenas suposições, projetos inacreditáveis e e de prazos incalculáveis. Para que o Exmo(a). Procurador(a). Tenha uma pequena idéia, uma coordenadora de arquitetura vem propor a transformação da clínica de psicologia em um lugar acessível, esquecendo que na Universidade, temos paraplégicos, que nunca freqüentarão a clínica de psicologia e são, como já disse, carregados em braços de colegas, todos os dias.

O nome desse grupo foi batizado de "acessando a vida", outra coisa incoerente, afinal, não estamos mortos e não precisamos acessar a vida, mas sim a Universidade. Note-se também que esse grupo só foi criado agora, sendo que vimos nos debatendo com a Universidade há quase três anos.


Necessidades urgentes de igualdade de tratamento:

Precisamos, urgentemente, "cursar" o curso que escolhemos, de formas igualitária, justa e integral, assim como nossos amigos "videntes". Precisamos que nos sejam dadas às condições de acesso, o mínimo que a lei determina ao menos, para que tenhamos possibilidades, de uma vez formados, competirmos em teórica igualdade de disputa aos mesmos empregos, aos mesmos concursos públicos, as mesmas vagas de estágios oferecidas por empresas que procuram profissionais no mercado, a fim de preencher seus quadros de colaboradores.

O Exmo(a). Procurador(a). sabe bem da dificuldade que uma pessoa "diferente" enfrenta no mercado de trabalho e na sociedade como um todo, as questões de preconceito velado, os estigmas que sofremos provenientes de um pensamento positivista tacanho que remonta ao longínquo século XIX, que acredita que a pessoa que não consegue, por si só, a superação de barreiras impostas à ela, é uma pessoa "preguiçosa", "encostada", "sem vontade", e assim por diante. Temos sim, temos muita vontade, apesar de tudo que enfrentamos, não desistimos da luta diária, mas sabemos que não depende exclusivamente de nós, mas sim, de todo um esforço conjunto entre sociedade, iniciativa privada, organismos públicos e leis que permitam o pleno acesso e o pleno gozo dos direitos que fazemos jus.

O que nos adianta termos bolsas de estudos, que futuramente não nos valerão em nada? Fazendo uma analogia muito grosseira, mas necessária, digo o seguinte: do que nos interessa ganharmos imensas sacolas para irmos fazer compras em algum hipermercado, se ao chegarmos lá, as prateleiras estiverem literalmente vazias? Para que nos servirão aquelas sacolas? Para que estudarmos gratuitamente, cobertos pela "benevolência" de uma instituição de ensino qualquer, se ao nos formarmos não teremos agregado nada aos nossos conhecimentos? Não teremos ampliado em nada nossos horizontes e nossas perspectivas?


Iniciativa própria:

Informo que por minha própria iniciativa e empenho, venho produzindo, ao longo do curso, conteúdos bibliográficos, os quais estou doando à Universidade, todo o conteúdo necessário do curso que realizo, ou seja, de psicologia, além de produzir alguma coisa também para o curso de Direito. O material que produzi, já passa de mais de 120 títulos completos de livros digitalizados, por mim mesmo e por pessoas que pago para isso, e minha intenção é conseguir adaptar todo conteúdo do curso. Todavia, informo que esse material está sendo tratado com menosprezo pelas pessoas responsáveis, uma vez que não está sendo catalogado e disponibilizado para os outros deficientes visuais, e quando os mesmos precisam e os procuram junto à biblioteca, diferentemente dos alunos "videntes" que tem total autonomia para consultar e buscar um livro normal, ficamos sob a responsabilidade de uma única pessoa que, ao ausentar-se, pelo menor tempo que seja, impede que um aluno deficiente visual consiga encontrar uma obra para consulta.

Ofereço esse trabalho há tempos na Universidade, informando também que estou disponível para auxiliar e colaborar para uma melhor implantação do mesmo, para que a biblioteca seja um local acessível e amistoso para meus semelhantes, mas isso é totalmente descartado e ignorado pela instituição que não me dá uma resposta positiva nem negativa a respeito, simplesmente o assunto é ignorado.


Problemas emocionais e psíquicos:

Comunico ao Exmo(a). Procurador(a) que o aparente controle pelo qual demonstro ao escrever esse documento é um breve momento de reflexão no qual me permito discorrer sobre esse assunto, mas mesmo assim, o(a) Procurador(a) não pode imaginar o que me acontece em termos emocionais e psíquicos, ao relatar, como numa espécie de catarse, todos esses acontecimentos e colocá-los a vossa apreciação. Assim como uma cena teatral, uma imagem numa tela de cinema, revivo todas as angústias, os constantes momentos em que desisto de tudo, nos quais me revolto, me desespero e me aflijo.

Não é fácil, para mim, um homem de 39 anos dizer isso, mas os conflitos emocionais pelos quais venho passando, momentos de extrema revolta e ao mesmo tempo extrema depressão, uma sensação de submissão, derrota e humilhação, vem, ao longo desse tempo, desencadeando, mesmo em meio a toda uma sala cheia de pessoas, crises de choro, angústia, desespero e sentimento de incapacidade, pela minha situação e ao ver meus amigos desistindo de seus sonhos. Tenho plena consciência de que não sou assim, pelo contrário, me julgo uma pessoa batalhadora, medianamente inteligente e capaz de discernir o certo do errado de maneira razoável, mas essa sensação de incapacidade, de impotência e fraqueza acaba por sempre me tomar e me derrubar, em vários momentos.

A profunda indignação com a Universidade, associada a uma incredulidade em órgãos públicos de controle da qualidade do ensino brasileiro, em muitos momentos, me impediram de continuar tentando e acreditando em justiça e igualdade de oportunidades.

O fato de estar registrando esse documento e encaminhá-lo ao Exmo(a). Procurador(a) é um daqueles momentos de rompante e reavivamento das esperanças em encontrar abrigo e acolhimento para os sofrimentos que eu e meus amigos deficientes passamos dia-a-dia nas instituições de ensino, públicas ou privadas, por esse País a fora.

Ter de ficar em foco em quase todos os momentos em que me rebelo contra uma inacessibilidade, quando reclamo por falta de condições de aprendizagem e tudo mais. Esse constante estado de evidência vem me deixando muito fragilizado e abalado emocionalmente, coisa que qualquer colega de classe poderia testemunhar a qualquer momento, pois, convivem comigo durante todo o tempo e sabem de minha luta. Além de ser tachado, constantemente, por coordenadores e diretores, de pessoa agressiva, revoltada, mal educada e assim por diante.


Humilhações e constrangimentos registrados:

Para embasar minhas denúncias de constantes humilhações e constrangimentos que eu e meus colegas passamos diariamente no âmbito da Universidade São Marcos, peço licença para anexar junto a esse documento, as inúmeras formas que tentamos para dialogar com a Universidade, os diversos documentos, projetos e requerimentos que elaborei individualmente e também em grupo, apontando as mazelas e a falta de acesso indiscriminada, as inúmeras súplicas que encaminhamos sem nada conseguirmos com isso. Também uma série de emails que enviamos a todos os responsáveis pela Universidade, coordenadores, diretores, reitores, etc, contando, através de atas de reunião e até de uma forma irônica e irreverente que nomeei de "diário de bordo", as dificuldades e necessidades que temos. Explico a forma irreverente de escrever, devido ao fato de tornar mais suave, coisas que gostaríamos de gritar de revolta e sofrimento. São relatos de um descaso sem tamanho, são narrativas de uma vida universitária restrita, amarrada, sofrida e pequena. Pequena no que diz respeito à comparação com os meios normais que todos os outros alunos, sem deficiência física ou sensorial, têm de usufruir de seus respectivos cursos.

O Exmo(a). Procurador(a) poderá notar que a cada ida a biblioteca se torna uma degradação de nossa integridade como ser humano e de nossa cidadania enquanto alunos dessa Universidade, devido a total inexistência de material adaptado para nossas expectativas de acessar o conhecimento e crescer como estudantes. As desculpas que a Universidade sempre nos deu é que ela não sabia como fazer, também a falta de recursos. Adiantamos que o complexo São Marcos de ensino, possui seis campus, está em franco desenvolvimento e ampliação, com a construção de uma nova unidade dentro de um shopping center no Tatuapé (Shopping Silvio Romero), num dos locais mais valorizados desse bairro. Isso por si só já invalida a segunda alegação, ou seja, a falta de verbas. Para o caso da primeira alegação, ou seja, a falta de informação pode-se verificar que não se trata disso, uma vez que nós mesmos, os deficientes da Universidade, sempre os alertamos para esse problema. Anexamos também cópias das telas de apresentação de um projeto de nossa autoria para solução dos problemas apontados, que foi exposto para o grupo "Acessando a Vida", que já mencionamos no item "maquiando os problemas".


Objetivos finais:

Peço desculpas ao Exmo(a). Procurador(a) pelo longo relatório, mas ele é ainda pequeno perto de tanta indignação que me assola nesse momento. Contudo, sabendo dos inúmeros compromissos e atribuições que os(as) rodeiam, resumo de maneira objetiva as pretensões que me levaram a criar esse documento e encaminhá-lo à vossa apreciação:

- comunicar o desrespeito à lei por parte da Universidade São Marcos, da qual sou aluno no sexto período de psicologia.

- Informar um pouco dos dissabores e aflições pelo qual eu e um grupo de pessoas estamos passando, que nos causam além de problemas estruturais de acesso físico a Universidade e dificuldades de aprendizagem e limitação na busca de conhecimentos, também uma série de problemas psicológicos, morais e emocionais derivados dos primeiros, fragilizando nossos egos e nos fazendo pensar que somos pessoas insignificantes e de segunda classe, indignas de atenção e respeito.

- Pleitear, junto a essa procuradoria, que intervenha junto a Universidade, cobrando as explicações necessárias e plausíveis para o presente e recorrente descaso e descumprimento das leis e normas vigentes.

- Conseguir, por fim, que nossos direitos de cidadãos de bem e cumpridores de nossos deveres, sejam respeitados e nossas necessidades mínimas de acessibilidade e qualidade de ensino sejam fornecidas e, com a ajuda de Deus e do Exmo(a). Procurador(a) digníssimo(a) representante do Ministério Público Federal, tenho certeza que vamos conseguir.

Sem mais, encerro esta, contando com vossa prestimosa ajuda e compreensão.


Atenciosamente,
Naziberto Lopes de Oliveira.

 

Como se desenvolveu a luta por inclusão e acessibilidade na Universidade São Marcos.

 

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