São Paulo, quinta-feira, 27 de julho de 2017 - 11:14.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

Capítulo III - "Dicas e Toques Legais", a relação aluno/professor.

Neste capitulo, as experiências vividas pelos alunos dvs são transformadas em dicas, sugestões, pequenos truques, pequenos detalhes que podem ajudar muito a relação aluno/professor, neste esforço conjunto de inclusão.

A forma comparativa adotada (aluno dv/aluno vidente) facilita a percepção das diferenças e demonstra, por si só, a necessidade dos ajustes pessoais que fazem os alunos se sentirem bem ou mal, incluídos ou excluídos da relação de ensino, adaptados ou não às suas respectivas classes e grupos de trabalho.

1- Apresentação inicial do professor: o reconhecimento da voz.

Tradicionalmente, o professor chega à sala de aula, nos primeiros dias, e se apresenta de viva voz ou escrevendo seu nome na lousa, além de outras informações necessárias para o início de sua programação

É conveniente, na sua primeira apresentação à classe, que o professor saiba com antecedência se existem alunos dvs. Havendo, é necessário que ele procure apresentar-se diretamente para ele.

Este não é um procedimento padrão, e nem é habitual na universidade, porém para o aluno dv esta atitude é fundamental. Aliada à sua insegurança por ser calouro, existe a dificuldade especial para saber o que está acontecendo na sala de aula, principalmente nos primeiros dias. Quando o professor se dispõe a apresentar-se diretamente ao aluno dv, já se inicia o processo de reconhecimento de sua voz, O aluno saberá que quem está falando com ele naquele momento, é o professor de tal disciplina e não o confundirá com outras pessoas.

Parece simples, não é verdade? E é realmente simples, mas isto raramente acontece

Dicas para o professor:

- Aproxime-se do aluno, apresentando-se pessoalmente.
- Pergunte como ele costuma fazer suas anotações.
- Caso ele queira gravar, permita.
- Espere que ele inicie a gravação.
- Avise sempre que tiver que escrever algumas coisas no quadro.
- Continue narrando tudo que escrever.
- Pergunte se ele tem um email, através do qual poderão se comunicar com mais rapidez e eficiência.

2- Programas da disciplina: material necessário no tempo certo.

O programa da disciplina é o contrato de trabalho entre o professor e o aluno, para um número determinado de aulas, geralmente um semestre.

É um documento extremamente importante para que o aluno possa ter uma noção de conjunto dos itens que deverão ser tratados pelo professor e seus objetivos, além de toda sua bibliografia básica e complementar a ser utilizada durante o semestre.

Tradicionalmente, o cronograma de aulas impresso em papel, é distribuído pelo professor no primeiro dia de aula. Este procedimento não atinge o aluno dv. Ele precisa destas informações impressas em braille, ou gravadas num CD-ROM, para que possa ler no seu computador em casa ou no NAAPNE, e ter acesso ao programa ao mesmo tempo que os demais colegas.

Dicas para o professor:

- Encaminhe ao NAAPNE o arquivo de seu programa, via email ou pessoalmente, com antecedência mínima de 10 dias para o preparo do material em braille ou em CD-ROM.
- Passe por email o programa e a bibliografia para os alunos dvs.
- Para o aluno dv, é de fundamental importância que ele tenha em mãos, ao mesmo tempo em que todos os demais de sua classe, o programa do professor.

3- Textos para leitura e bibliografia da disciplina: ajuda do NAAPNE.

Tradicionalmente, na Universidade São Marcos, os professores costumam indicar os textos de apoio para suas aulas com certa antecedência.

Dicas para o professor:

- O professor pode encaminhar pessoalmente ou por email ao NAAPNE o texto, o capítulo ou a bibliografia completa que está recomendando para leitura. O ideal é que o professor faça isto com o máximo de antecedência possível, para que o aluno dv possa receber este material junto com os demais colegas.
- O professor deverá lembrar-se de atualizar constantemente, junto ao NAAPNE, o material de apoio para suas aulas.

4- Anotações no quadro: construções mentais.

Tradicionalmente, quando o professor está escrevendo na lousa, ele permanece em silêncio, ou narra apenas algumas partes mais importantes. Com este procedimento, o aluno dv fica excluído, pois não pode anotar e nem gravar.

É complicado para um aluno com este tipo de deficiência compreender um esquema, por exemplo, porque este tipo de demonstração gráfica é subdividido infinitamente em outros subesquemas. A visão do conjunto torna-se impossível. Quando o professor utiliza expressões tais como "à direita", ou "aqui em baixo", ou ainda, "para cá ou para lá", é muito desagradável para o aluno dv não poder acompanhar seu raciocínio. Ele fica completamente "perdido".

Dicas para o professor:

- Para que um professor não deixe excluído o aluno dv a cada vez que escreve na lousa, o jeito mais adequado é narrar a sua escrita no exato momento em que está escrevendo.
- Quando se tratar de um esquema, com subdivisões, chaves, números, letras, o ideal é ir narrando, ir pontuando a cada momento o que vai escrevendo de chave em chave. E deve fazer isto tanto quando está caminhando para fora do esquema (para a direita), assim como quando volta para dentro do mesmo (à esquerda).
- Para não deixar o aluno dv confuso no meio da explicação, o professor precisa dizer literalmente para que local do quadro está apontando. Por exemplo: "Voltando para o tópico em que falamos de... podemos comparar com... que está aqui à direita".
- Desta maneira, o aluno dv vai construindo mentalmente o esquema ou o desenho elaborado no quadro, e poderá, posteriormente, montar aquele esquema ou desenho de sua própria maneira.

5- Apresentação de transparências: a sensação de exclusão total.

Tradicionalmente, os professores têm suas transparências com os tópicos a serem abordados em aula, com pequenos textos resumidos das teorias ou conceitos. Ao serem exibidas, os alunos videntes copiam os tópicos, para posteriormente agregarem novas informações com o decorrer das explanações do mestre. Às vezes, solicitam dos professores estas transparências e fazem cópias xerografadas.

Sem dúvida, este é um dos momentos de maior exclusão de um aluno dv. Seu acesso é totalmente impossível, e à medida que as folhas de transparências vão sendo trocadas, a sensação de "estar perdido" ou de confusão, ficam cada vez mais evidentes. Isto ocorre com muita frequência, tanto nas aulas regulares ao longo do semestre, como nas apresentações de trabalhos dos demais alunos.

Dicas para o professor:

- As transparências devem ser oferecidas ao aluno dv em braille ou em CD-ROM, com o auxílio dos estagiários do NAAPNE. Para isso, precisam ser encaminhadas via email ou em CD-ROM, com a maior antecedência possível, para o Núcleo.
- Na ausência de cópias em braille, cada página da transparência deve ser lida e pontuada na íntegra. Dessa maneira, o aluno dv vai acompanhando tópico por tópico e fica incluído na discussão, e com possibilidades de levantar questões.
- Seria interessante ainda, que o professor recomendasse aos demais alunos da classe, a importância de fornecer, também com antecedência, as transparências das futuras apresentações de seus trabalhos individuais ou em grupo. Dessa forma, estarão praticando também o exercício da inclusão.

6- Apresentação de filmes: um momento difícil.

Tradicionalmente, este é um recurso muito utilizado pelos professores. Para o caso de filmes nacionais ou então filmes dublados para o português, não há nenhum problema, pois o aluno dv tem condições de compreender o contexto através dos diálogos ou de narrações. Mas para filmes estrangeiros legendados, mudos ou ainda que misturem idiomas, o problema existe.

Dicas para o professor:

- Alguns filmes possuem uma versão atualizada em DVD. A substituição do videocassete por cópia DVD é recomendável, pois facilita sua utilização na opção de dublagem em português.
- Pode ser que o aluno dv já esteja bem adaptado aos colegas e estes prontamente se ofereçam para a audiodescrição do filme. Isto já resolve a situação.
- Um procedimento correto por parte do professor é oferecer para o aluno a sua contribuição, fazendo uma narração sucinta do filme, do que está acontecendo, um contexto geral da obra, os pontos de maior interesse, sem a necessidade de traduzir todas as falas. Esta audiodescrição pode ser feita em tom baixo, no fundo da sala de aula, para que não atrapalhe o restante da turma.

7- Avaliações: um duplo problema.

a) Na Aplicação.

Fazer avaliações já é um motivo de preocupação para qualquer aluno, em qualquer tempo. Imagine agora um aluno dv será que o professor terá uma prova adaptada? De que formato?

É muito importante que o professor tenha conhecimento prévio das necessidades do aluno dv em relação às avaliações. Isto pode ser conseguido simplesmente com uma conversa prévia, direta e objetiva, para saber se ele está habituado à avaliação em braille, CD-ROM ou prova oral.

Á maioria dos alunos dvs prefere a prova em braille, com a qual estão mais familiarizados. Mas alguns deles podem requisitá-la em CD-ROM, se possuírem um computador portátil, e/ou se tiverem a permissão de realizar as avaliações no NAAPNE. Isto deve ser combinado com antecedência.

É muito comum entre os professores que têm alunos dvs em suas classes, optarem por provas orais. Mas, segundo muitos destes alunos, esta é a pior opção, a menos recomendada, porque além da dificuldade natural da avaliação, existe o constrangimento diante do avaliador.

Outra forma utilizada é o professor pedir para que o próprio aluno leia a sua prova feita em braille, para que o professor possa corrigi-la no mesmo instante e já conferir-lhe a nota respectiva.

Para essas duas últimas opções, devemos salientar que uma das preocupações de todo professor deve ser o zelo pela linguagem e boa escrita. Pois bem, essas duas formas de avaliação não permitem que ele se aperceba disso, ou seja, se o aluno está ou não escrevendo corretamente, respeitando as normas ortográficas vigentes. Sendo assim, são duas opções que, caso seja uma escolha autônoma do aluno, podem ser utilizadas, mas é preciso que se esteja atento a esses cuidados, visando a uma melhor formação do aluno.

Dicas para o professor:

- Um recurso muito rápido é permitir que o aluno dv realize sua avaliação nos computadores do NAAPNE, caso ele não tenha um computador pessoal, mas tenha habilidade com esse recurso. O resultado é instantâneo e a avaliação será impressa e entregue ao professor, permitindo o processo de correção e devolução em tempo hábil.
- Caso a opção seja para a avaliação em braille, o professor deverá enviar, com a maior antecedência possível, uma cópia para o NAAPNE para sua devida transcrição em tempo útil.
- Caso a opção seja para a avaliação em CD-ROM, basta gravá-lo e entregá-lo ao aluno dv. Depois de respondida, ele lhe entregará para sua correção.
- Caso a opção seja pela prova oral, combine com o aluno dv o melhor local, dia e condições para realizá-la.

b) Na devolução da prova.

Tradicionalmente, os professores devolvem suas provas com as respectivas correções, comentários e notas, ao final de um prazo específico.

É imprescindível que o aluno dv receba suas provas e notas ao mesmo tempo que seus colegas, e que ele possa saber dos comentários, dicas, além dos erros cometidos na avaliação.

Dicas para o professor:

- Se a avaliação foi realizada em braille, tome os devidos cuidados de solicitar ao Núcleo a sua devolução, pois terá que entregá-la corrigida junto com todas as outras.
- Se a avaliação foi feita em CD-ROM, o professor pode transcrever os dados da correção também no mesmo dispositivo. Isso possibilita que o aluno dv tenha contato direto com os comentários da correção, assim como todos os outros.
- Se a avaliação foi feita oralmente, o professor pode optar por fornecer ao aluno dv sua nota imediatamente após seu término.
- Tomando todos esses cuidados, evitar-se-ão, ao máximo, expressões tais como: "Esqueci sua prova!", ou "Sua prova ainda não chegou", ou também, "Eu não sei o que fizeram com a sua prova", pois estas expressões podem destruir todas as expectativas e esperanças de uma inclusão verdadeira.
- O aluno dv tem as mesmas ansiedades, angústias, dificuldades, medos como qualquer outro aluno.

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