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Porcos ou gafanhotos, o que somos? Jardim sensorial nãããooo!!!

Publicado em: 21 de junho de 2011 às 15:18.

Ilustração: Desenho dos tres porquinhos dançando abraçados

Ilustração: Desenho dos tres porquinhos dançando abraçados

Prezados senhores e senhoras administradores, arquitetos, paisagistas, ambientalistas, botânicos, engenheiros, gestores públicos, Secretários ou ministros de Estado, assessores, Prefeitos, Governadores, Presidentes da República, Deputados Estaduais, Federais, Vereadores, Senadores, e qualquer outro ser humano que venha a ter a infeliz idéia de construir mais um “Jardim Sensorial” para pessoas cegas sentirem o perfume e o sabor de plantas da flora brasileira, alerto-os que a partir de hoje estou rogando uma praga em todo e qualquer um de vocês para que seus filhos, netos, bisnetos ou tataranetos nasçam com um enorme focinho de porco incrustado no lugar do nariz. Repito, que seus descendentes diretos e indiretos nasçam com focinhos de porcos no lugar do nariz!!

Eu até gostaria de ter iniciado esse texto de forma mais amena, mais meiga, mais amistosa, mas é praticamente impossível fazer isso a cada instante que eu, pessoa cega, me vejo simbolizado nas mídias por esse País a fora e na imensa maioria das vezes por pessoas que não são cegas, indicando que pessoas como eu temos o desejo de visitar um jardim, um parque, uma reserva ecológica, enfim, um lugar do tipo, para devastá-lo, seja chafurdando nossos narizes na relva como porcos, seja devorando as plantas como gafanhotos.

Eu, assim como tenho certeza que milhares de outras pessoas cegas, declaramos de uma vez por todas que nos recusamos categoricamente a sermos apresentados, identificados, reconhecidos, propagandeados como anormais!! Afinal de contas meu deus do céu será que alguém dito “normal” visita um parque ou um jardim para cheirar ou comer as plantas do lugar?! O que seria de nossos parques e bosques se os seus visitantes fossem para lá para pastar?!

Certamente que a maioria dos visitantes não se dirige a esses locais com essa finalidade, mas nós os cegos pelo jeito sim, nós somos diferentes, somos a espécie mais danosa à flora de nosso planeta, somos uma verdadeira praga! A primeira coisa que fazemos quando vemos um arbusto, uma folhagem ou um vaso de bromélias é enfiarmos nossos narigões nas plantas indefesas, deflorando as pobrezinhas, não podemos ver um gramado verde que nos prostramos para saborearmos o capim, rolarmos na grama, chafurdarmos na terra, enfim, interagindo “elegantemente” com a vegetação.

E o mais absurdo de tudo é que tem gente séria e que se diz profissional da inclusão, da acessibilidade, da ponte que partiu, acreditando e defendendo essa lamentável idéia e a considerando como se isso fosse a salvação para que os pobres ceguinhos, esses desafortunados da visão conheçam o que é a mãe natureza. Basta! Chega de bobagem! Chega de besteira! Chega de nos tratar como se não tivéssemos nada mais para fazer na vida a não ser fungar! Chega de pensar que somente porque somos cegos o nosso único consolo no Mundo é sermos cheiradores contumazes! Céus! Os traficantes de entorpecentes que não nos descubram, seremos a clientela perfeita!

A minha grande preocupação é que se a teoria de Charles Darwin realmente estiver correta, do jeito que vão essas coisas, os cegos do futuro evoluirão para seres humanóides com focinhos de porco, nariz de tamanduá ou tromba de elefante! Credo! Ainda bem que eu sou dessa geração, a próxima geração de cegos está perdida! Como eles carregarão uma napa daquele tamanho? Se bem que a própria tromba ou nariz de tamanduá já poderão servir talvez de bengala, ao menos uma boa notícia nessa catástrofe que se aproxima! Quer dizer, o cego já nascerá com uma ajuda técnica plantada na cara!

O mais recente “Jardim Sensorial” efusivamente inaugurado em São Paulo localiza-se no IAC, Instituto Agronômico de Campinas, que foi inaugurado dentro do Jardim Botânico daquele lugar. E a imagem de lançamento não poderia ser outra, adivinhem! Um monte de pessoas com vendas nos olhos cheirando e comendo as plantas! E o gestor do local afirma em entrevista que a manutenção do espaço será bastante complexa, uma vez que as pessoas podem debulhar e comer as plantas a vontade! Quer dizer, a cada visitação o pobre jardim terá que ser reconstruído!

Outra informação auspiciosa é a de que lá dentro existem 30 espécies de plantas cheirosas ou saborosas para os ceguinhos fungadores e devoradores, isso mesmo, 30 espécies, quanta coisa não é mesmo?! As pessoas cegas poderão conhecer 30 espécies de plantas da flora brasileira, mas esperem um pouco, quantos tipos de plantas tem a flora nacional mesmo? Alguém saberia me dizer? Tem algum botânico de plantão por ai? Eu preciso saber qual é o tamanho da parte que nos cabe desse latifúndio botânico! Não precisamos ir muito longe, será que dentro do próprio jardim botânico do IAC existem apenas 30 espécies de plantas para serem apreciadas pelas pessoas normais?

Venham cá meus senhores e senhoras que inventam essas coisas, certamente super bem intencionados, eu tenho certeza disso, mas vamos falar sério agora: Por que destinar somente uma pequena fração de um jardim, parque ou bosque para um segmento de pessoas em virtude de alguma deficiência se elas poderiam e teriam o direito de usufruir de todo o espaço assim como qualquer outra pessoa sem deficiência? Por que essa idéia antiquada dos famosos “cantinhos” dos iguais teima em sair das cabeças de algumas pessoas já que todos nós somos diferentes?! Será que ainda se acredita que existam os iguais e os diferentes em pleno Século XXI? Pergunto-lhes: Será que pelo menos os gêmeos univitelinos seriam iguais?

Por favor, peço encarecidamente, se vocês realmente acreditam que todos somos diferentes uns dos outros, que cada ser humano possui sua especificidade, sua singularidade, que vivemos em um Mundo diverso e rico justamente em virtude dessa variedade esplendorosa de pessoas diferentes, parem de inventar mundos separados! Parem de tentar criar espaços fictícios que as pessoas reais não aceitam mais! Se vocês querem que crianças com qualquer deficiência curtam seus parques e jardins, então convidem-nas para passear por eles, levem-nas aos espaços reais, mostrem a elas o que eles são de verdade para ampliar as consciências e experiências dessas crianças e não passar a elas a certeza de que o “mundo” reservado para o seu deleite seja tão pequeno e limitado.

E mudar essa consciência é mais fácil do que se imagina, querem uma ajuda para treinar? Pois bem, façam o seguinte: Se vocês moram aqui em São Paulo ou se visitarem a cidade um dia, por gentileza, passem no Parque Villa-Lobos, por exemplo, cito esse porque gosto muito dele, mas temos muitos outros parques bonitos e interessantes na cidade. Uma vez lá dentro, entrem no orquidário, um espaço muito bonito do parque, e fiquem somente ali, uma, duas, três horas, mesmo que vocês já tenham visto todas as espécies do viveiro, façam novamente a volta, e mais uma e outra e outra vez e não saiam dali até chegar a hora de irem embora para casa. Será que depois desse passeio vocês poderão afirmar a seus amigos que visitaram o Parque Villa-lobos que tem cerca de 700.000 metros quadrados?!

Assim sendo, se eu consegui convencê-los de pararem com essas idéias estapafúrdias de tentarem simular um mundo que não pode e nem deve ser simulado para pessoas com alguma deficiência, somente pelo fato dessas pessoas possuírem uma deficiência, façam o seguinte, usem esses recursos, que não são poucos, que são inutilmente gastos nessas brincadeiras, nesses jardins sensoriais, nesses museus escuros, nessas Caixas de Skinner para a simulação do universo dos cegos ou das pessoas com deficiência, e apliquem esse dinheiro na adaptação do Mundo real para que todas as pessoas, com ou sem deficiência, possam verdadeiramente transitar e fruir dele. Pensem, por exemplo, nas calçadas de suas cidades! Olha ai que dica legal, será que uma pessoa cega, em cadeira de rodas, com muletas, empurrando um carrinho de bebê ou com alguma mobilidade reduzida permanente ou temporária pode transitar nas calçadas de suas cidades?

Pois bem, esse tipo de experiência, de vivência, até que é louvável, ou seja, dos senhores e senhoras fecharem os olhos ou sentarem em uma cadeira de rodas por alguns poucos minutos, tenho certeza que vocês não vão agüentar ficarem muitos minutos nessas condições, e tentarem circular por cinqüenta ou cem metros de alguma calçada aleatória em suas cidades. Será que vocês vão conseguir chegar de um ponto a outro com segurança e rapidez? Se não conseguirem, isso significa que algo está bastante errado e não será alucinando, inventando e construindo miniaturas de mundos separados, fictícios, de brincadeirinha, protegidos e muito distantes do Mundo real que isso será corrigido.

Portanto, prezados senhores e senhoras citados no começo deste artigo, nós os cegos não somos porcos ou gafanhotos, não somos narizes que carregam pessoas, nós apenas não enxergamos. Não queremos frações de jardins, queremos jardins inteiros; não queremos metros de parques, queremos os parques inteiros; não queremos salas em escolas, queremos as escolas inteiras; não queremos pedaços de cidades, queremos cidades inteiras. Não aceitamos mais uma fração de cidadania, queremo-la em toda sua plenitude, queremos poder viver em sociedade a vida como ela é, arriscada e segura, agitada e tranqüila, amarga e doce, e justamente por causa de todas essas misturas, absolutamente maravilhosa de ser vivida.

Desculpem o mau jeito, mas não vi outro jeito de dizer isso, não dá para contemporizar, não dá para dourar a pílula.. E não se esqueçam de minha praga. Ela pega mais do que praga de mãe! E peço a outros colegas também cegos que se quiserem rogar a mesma praga, ela vai reverberar melhor e mais forte ainda!

P.S.: Quanto ao pessoal do IAC, respeito a preocupação e a intenção de vocês, mas da próxima vez, por favor, procurem pessoas cegas que usem a massa cefálica e não apenas as fossas nasais, felizmente ainda somos a maioria. Outra coisa, recomendo a leitura de um documento chamado “Convenção da ONU pelos Direitos das Pessoas com Deficiência”, vocês irão descobrir coisas muito interessantes ali dentro.

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