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Quem escolhe o livro que voce lê? Parte 2 – Constatações tenebrosas

Publicado em: 6 de outubro de 2010 às 23:42.

Ilustração: desenho de um hippie comendo um sanduiche de livros

Pessoal, no final da parte 1, falávamos a respeito da exclusão das pessoas com deficiência visual – cegas ou com baixa visão – do universo dos livros e da leitura.

O que ocorre, na verdade, é que essas pessoas não têm direito a escolher seu próprio livro, sua própria leitura, pois precisam se contentar com aquilo que é escolhido por outrem e adaptado para elas, o que não chega nem perto do que o mercado editorial lança todos os anos nas prateleiras de livrarias e bibliotecas.

Somente no Brasil, por ano, segundo informações do próprio mercado, imprime-se cerca de 320 milhões de volumes de livros, somando-se todos os gêneros, didáticos, ficção e não ficção. Se considerarmos uma média de 2000 volumes por edição, chegaremos a 160 mil títulos novos lançados todos os anos. Já para as pessoas com deficiência visual, o número de títulos novos não ultrapassa a casa dos dois dígitos anuais, incluindo-se nessa conta os livros em formato áudio, braile, letras ampliadas, entre outros. A diferença é abissal, é simplesmente Escandalosa!!

E ao que se deve tudo isso? Quer dizer, e ao que se deve nada disso?! Bom, em primeiro lugar as pessoas com deficiência visual, de todos os outros grupos de pessoas com deficiência, parecem ser as mais dispersas, mais pulverizadas em pequenos grupos, pequenas instituições isoladas e sem força para exercer pressão social. Sem contar o fato de que sem o acesso ao livro, conseqüentemente à informação e ao conhecimento, qualquer grupo social torna-se massa fácil de ser manipulada e controlada.

Outro fator contribuinte para essa exclusão das pessoas com deficiência visual do mercado editorial é a existência de algumas instituições especiais que, quando nasceram, tinham o propósito de lutar pela independência e autonomia dessas pessoas. Porém, hoje em dia a única preocupação dessas mesmas instituições é com a sua própria sobrevivência, assim, propagandeiam a inclusão e a acessibilidade para pessoas com deficiência como sendo um problema tão complexo que apenas elas saberiam equacionar.

Citamos, por exemplo, o caso de uma importante fundação brasileira de prestação de serviços para cegos, cujo passado de contribuições ao segmento foi sem dúvida relevante. No tempo que somente o braile significava acesso aos livros às pessoas com deficiência visual o trabalho dessa fundação sempre foi pioneiro. No entanto, passado o tempo, modernizadas as tecnologias, democratizadas as formas de acesso ao computador e à Internet, as pessoas com deficiência visual passaram a depender menos do braile e mais das tecnologias e ajudas técnicas voltadas à acessibilidade e à inclusão digital.

Hoje, qualquer pessoa com deficiência visual que tenha um scaner e um computador adaptado com programa de voz (software leitor de tela) em casa, pode digitalizar qualquer livro e fruir de seu conteúdo sem precisar mais depender apenas do braile que é extremamente caro, de preparação demorada, e volumoso demais para sua guarda ou portabilidade..

Nesse sentido, o livro em formato digital acessível é absolutamente necessário para esse enorme contingente de pessoas com deficiência visual poder acessar a informação e o conhecimento literário, artístico e científico produzido pelo mercado editorial. Esse formato de livro já existe, ele é a gênese de todo livro editado no Mundo, pois atualmente qualquer livro nasce de alguém sentado diante de um computador, com uma idéia na cabeça, teclando e transformando seu pensamento em texto digital. Este mesmo livro passa a ser inacessível para o público com deficiência a partir do momento que segue para a gráfica e vira folha de papel impressa.

Portanto, graças as novas tecnologias da informação, seria simples para os próprios editores e autores produzirem o livro digital acessível, inserindo nele pequenas informações adicionais sobre as ilustrações existentes, descrevendo essas imagens para aqueles que não podem vê-las. Inclusive, sem descaracterizar a acessibilidade ao livro, os editores também poderiam inserir códigos de proteção digital (DRM) no sentido de impedir a cópia ilegal (pirataria) da obra, risco bastante temido por esse mercado.

Mas se tudo isso é possível, por que não acontece ainda? Pois é, lembram-se quando falamos sobre a interferência de algumas instituições especiais para pessoas com deficiência? São justamente essas que lutam contra essa possibilidade. Aquela fundação que citamos antes, por exemplo, coloca-se como uma das maiores opositoras da relação direta entre o fornecedor (Biblioteca, editora ou livraria) e a própria pessoa com deficiência.

Nesse sentido, essa fundação alardeia junto aos editores que se suas empresas venderem ou cederem diretamente os livros em formatos acessíveis às pessoas com deficiência certamente irão à falência com a pirataria generalizada de suas obras.

Primeiro então ela vende a nossa imagem como verdadeiros piratas do Caribe, depois Vende a idéia que somente ela tem a experiência necessária para lidar e controlar esse público de potenciais criminosos digitais e que os editores devem encaminhar qualquer interessado no livro para lá, pois ali eles serão cadastrados, recebendo uma senha de controle, deixando de ser um risco ao negócio das empresas editoriais.

Dessa maneira, por mais que uma pessoa com deficiência tenha condições de adquirir seu livro no mercado, pagando por ele e querendo ser reconhecida como consumidora normal de livros, a imagem que essa instituição fomenta em sociedade é que todas as pessoas com deficiência são iguais, carentes, coitadas, improdutivas, incapazes de suprir suas necessidades por conta própria e dignas apenas de assistência e caridade social.

Por outro lado, por mais que as pessoas com deficiência que não podem comprar seus livros os queiram nas bibliotecas de suas escolas e municípios, necessitando deles perto de si, para um acesso rápido e efetivo, são obrigadas a aguardar dias, semanas, meses e até anos para receberem alguma leitura provinda de longe, muito longe, lá de onde fica a instituição especial. E em muitos casos, essas pessoas jamais recebem seu livro ou sua leitura infelizmente.

Vocês devem concordar que ter um poder desses nas mãos é realmente fantástico, o poder de ser praticamente a única responsável pela distribuição da leitura das pessoas com deficiência visual de todo um País!! Claro que para isso essa instituição precisa ser muito bem abastecida com donativos sociais e investimentos governamentais. Elementar meu caro Watson!

Bom, encerrando mais essa parte, convido-os a continuar na parte 3 e verificarem algumas estranhas relações entre instituições de e para pessoas com deficiência. Que tipo de interesse mútuo pode haver entre instituições que se dizem representar as pessoas com deficiência e instituições que devem prestar serviços a essas pessoas.

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