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Índia para inglês ver… Desde que não seja cego!

Publicado em: 21 de abril de 2012 às 14:11.

Ilustração: Fotografia da fachada do Taj Mahal - famoso palácio na Índia

Ilustração: Fotografia da fachada do Taj Mahal - famoso palácio na Índia

Prezados amigos de luta e militância na busca de uma sociedade inclusiva de verdade e não apenas nos discursos políticos. Quero compartilhar uma experiência incrível que tive esses dias quando fui convidado por uma amiga para acompanhá-la a uma exposição aberta no Centro Cultural Banco do Brasil.

Trata-se da exposição intitulada “Índia!”, isso mesmo, com exclamação e tudo. Ela está aberta lá na Rua da Quitanda, centro da cidade de São Paulo, como disse antes, no Centro cultural Banco do Brasil. Importante se dizer é que se trata de uma exposição patrocinada pelo Ministério da Cultura. Assim sendo, vejam bem, Banco do Brasil, instituição pública, Ministério da Cultura, nossa, um poderoso Ministério do nosso atual Governo Federal, liderado hoje pela Ministra Ana de Holanda, personagem conhecida e renomada no mundo artístico e cultural brasileiro.

Pois bem, com todas essas credenciais públicas, eu como sou parte do público, apesar de ser pessoa com deficiência visual, imaginei que certamente a exposição por ser pública e patrocinada por instituições públicas, jamais teria se esquecido que o público brasileiro é constituído de pessoas diversas, altas, baixas, gordas, magras, negras, brancas, amarelas, indígenas, novas, velhas, todas estas possuindo ou não alguma deficiência física, intelectual, sensorial, psicossocial, algumas possuindo até mesmo deficiência múltipla, ou seja, a soma de duas ou mais dessas deficiências. Afinal, segundo último Censo IBGE 2010 somos mais de 45,5 milhões de brasileiros diretamente afetados por alguma deficiência.

Se imaginarmos que nenhuma pessoa com deficiência nasceu de chocadeira, que ele tenha um pai, uma mãe e possivelmente um irmão, podemos facilmente multiplicar aquele número inicial por 4 e chegaremos aos impressionantes 182 milhões de pessoas no Brasil envolvidas direta ou indiretamente com alguma deficiência. Isso sem contar os amigos, parentes mais distantes ou conhecidos. Quer dizer, dificilmente no Brasil hoje alguém não tem uma pessoa com deficiência por perto, seja em sua família nuclear, seja ao seu redor, na sua rua, em sua escola ou em seu trabalho.

Postas essas colocações e esclarecimentos, voltemos ao meu passeio bucólico na exposição “Índia!”.

Chegando lá, a primeira coisa que minha amiga resolveu fazer foi perguntar a uma recepcionista se existia algum tipo de áudio-guia, aparelho geralmente utilizado em museus que contém informações pré gravadas com maiores detalhes sobre as obras expostas e ao toque dos dedos pode narrar a peça, a obra, o quadro, o vídeo que está sendo observado pelo visitante. Não se trata de um aparelho pensado para inclusão de pessoas com deficiência, mas sim para ampliação das informações passadas para qualquer visitante do museu ou outro centro de cultura.

A resposta foi que não havia nenhum áudio-guia. Entramos assim mesmo e minha amiga resolveu ser a minha audiodescritora no momento, de maneira bastante solícita, passando a ler em voz alta as diversas placas informativas das obras, descrevendo aquilo que ela conseguia captar do que estava sendo exposto. Bom, acho que não preciso dizer que nada ali tinha acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão. Muitas coisas acondicionadas em caixas de acrílico transparentes, roupas, artefatos, afrescos. Muitas coisas expostas ao ar livre, mas sempre com uma placa dizendo: “É proibido tocar nas obras”.

Claro que eu, transgressor inveterado e iconoclasta como sou, logo comecei a passar o meu recado subliminar e fui metendo a mão em tudo que podia. Sárís, vasos, cântaros, telas das televisões, quadros, sem nenhum pudor ou falta de vergonha, afinal, os organizadores de eventos assim não tem vergonha alguma de excluir pessoas como eu, porque eu teria vergonha de mostrar-lhes que estão absolutamente alienados do novo paradigma estabelecido pela CDPD – Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU?

E a coisa foi rolando, algumas pessoas contratadas para fiscalizarem o comportamento dos visitantes olhavam feio, segundo minha amiga relatou, outros ficavam sem jeito de dar bronca, outros faziam de conta que não estavam vendo. Pena que eu não tinha um sorvete de chocolate na hora, seria muito legal ter as mãos todas lambuzadas de chocolate e mesmo assim ir tocando, dedilhando, deixando minhas digitais em tudo que aparecesse! Já sei, da próxima vez vou passar na padaria antes! Me aguardem exposições paulistanas!!

O mais insólito foi em um determinado ponto da exposição, existia uma fotografia de um gradil, não sei do que se tratava, mas diante da qual existia um totem com umas inscrições em braile. Nossa! Ficamos paralisados, eu e minha amiga, pois foi algo inesperado, um totem com braile perdido ali no meio. Bom, nele estava desenhado em relevo o mesmo contorno do gradil da foto exposta. Tudo muito circular, encaracolado. Eu fui passando os dedinhos e de repente um fiscal se aproximou e disse com voz séria: “é proibido tocar nas obras!”. Outra vez paralisamos, afinal, eu estava tentando ler o braile que estava ali explicando a foto.

Tentamos explicar para o fiscal que naquele caso o painel deveria ser tocado, pois do contrário, o seu objetivo não seria alcançado, quer dizer, o braile feito para informar algum cego pelo toque não informaria por não poder ser tocado! Nossa, parece até aquelas frases trava língua. Mas não adiantou muito, o cidadão que ali estava não sabia nem de longe o que significava braile, toque, tato, cego, deficiência, acessibilidade, inclusão, diversidade!! Acho que pelo menos o nome dele e o endereço de sua casa ele deveria saber Né? Ah, claro, ele também sabia que “É proibido tocar nas obras!!”. Claro que estou brincando um pouco porque se formos falar somente de maneira séria sobre um assunto desses isso aqui vai virar novela mexicana do tipo: “Os cegos também choram!!”.

Ao final deixamos a exposição, minha amiga contente por ter visto muitas coisas interessantes sobre a terra de Mahatma Ghandi, mas descontente por ter percebido a falta de respeito para com uma expressiva parcela da população que foi esquecida na montagem daquele evento. Eu, contente por ter podido saber alguma coisa da Índia graças à solidariedade dessa amiga, e descontente por não ter me lembrado de comprar um sorvete de chocolate antes de entrar lá!

Resumo da ópera: Como estamos criticando aqui em São Paulo a atuação das duas secretarias de governo criadas para a defesa dos direitos das pessoas com deficiência, a Estadual e a Municipal, que só dão bola fora no que diz respeito à inclusão e acessibilidade para pessoas com deficiência visual, temos agora que lembrar também para que existe a SNPCD, Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, lá em Brasília, bem longe de nós fisicamente e pelo que tudo indica bem longe de nós também estratégica e politicamente.

Vejam bem, estamos falando aqui do patrocínio do Ministério da Cultura, governo Federal, estamos falando aqui de Banco do Brasil, governo Federal, estamos falando aqui de acessibilidade, de direitos humanos, de diversidade humana, estamos falando de sociedade inclusiva, por fim estamos falando de Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, aprovada e ratificada pelo Governo Federal como emenda Constitucional.

A atual Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, antiga CORDE, tem o orgulho de escrever em todas as suas comunicações à sociedade que ela é um órgão vinculado a SEDH, Secretaria especial de Direitos Humanos, que por sua vez é um órgão vinculado a Presidência da república. Oras, vejam ai, Presidência da República, portanto, governo Federal! Bingo! Tudo em casa, tudo no mesmo nível. E daí perguntamos, onde está a articulação dessa Secretaria Nacional com os outros órgãos nacionais? Ministérios, Secretarias, autarquias e demais instituições?

Pelo jeito os critérios de acessibilidade, inclusão e sociedade para todos que prevê a CDPD estão muito longe dos olhos do Ministério da Cultura, do Banco do Brasil, dentre outros órgãos do Governo Federal. Muito menos se percebe alguma articulação entre eles e a Secretaria nacional das Pessoas com Deficiência, no sentido de promoção de políticas públicas que atendam as demandas do nosso segmento

Portanto, percebemos mais um furo no atual Plano “viver sem limite” lançado ano passado com pompa e circunstancia pelo governo Federal e pela SNPCD. Justamente essa exposição promovida e patrocinada por dois órgãos federais de extrema relevância, Banco do Brasil e Ministério da Cultura, que sem o menor constrangimento impuseram um limite insuperável para o público com deficiência visual, isto é, a completa inacessibilidade da exposição.

E para finalizar, como estamos falando da Índia, por que não uma frase do fabuloso líder político e religioso daquele povo, para jamais desistirmos de nossas lutas, porque se desistirmos delas, estaremos também desistindo de nossa liberdade.

“Estou firmemente convencido que só se perde a liberdade por culpa da própria fraqueza.”
(Mahatma Ghandi)

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