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Projetos para cegos não tem espaço na SEDPCD de São paulo

Publicado em: 24 de abril de 2012 às 15:05.

Ilustração: Desenho de uma cegonha com um sapo dentro do bico. Só aparecem as pernas do sapo.

Caros amigos militantes, falamos nesse momento como responsáveis pela idealização, articulação e coordenação do MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil, que há anos tenta conscientizar governantes, gestores públicos e políticos sobre a necessidade da criação de leis que possibilitem a uma pessoa com alguma deficiência, incapacitante para a leitura impressa, adquirir seu livro em formato acessível, conseqüentemente, adquirir informação e conhecimento.

Nesse sentido já desencadeamos uma série de ações e discussões em busca de nossos objetivos, o livro e a leitura acessíveis de maneira ampla, geral e irrestrita.
A – Criamos e entregamos nas mãos do Ministro da Cultura abaixo assinado com mais de 15.000 assinaturas em prol dessa causa. O abaixo assinado ainda está recolhendo adesões em http://livroacessivel.org/abaixo-assinado-apresentacao.php;
B – Participamos do Grupo de Trabalho do Ministério da Cultura para criação de texto de regulamentação para a Lei do Livro – 10.753/03;
C – Entramos com diversas ações em juizados especiais, no Ministério Público Estadual e Federal tentando garantir a compra de livros acessíveis em editoras brasileiras;
d – Criamos e mantemos atualmente um site/blog na Internet divulgando todas as nossas ações, textos e notícias a respeito do tema em www.livroacessivel.org/blog;
e – Entre outros movimentos.

Em 2008 foi criada a Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo – SEDPCD, quando fomos convidados para auxiliar na elaboração de políticas públicas voltadas a garantia de direitos desse segmento social, inclusive sendo citados no primeiro discurso da secretária empossada, que prometia inserir a questão do livro acessível dentre as demandas das pessoas com deficiência a serem implementadas no Estado de São Paulo.

Naquele momento nossa satisfação foi intensa quando imaginávamos a possibilidade de auxiliar o governo do estado a conhecer, entender e inserir as demandas das pessoas com deficiência em geral, e no nosso caso em particular a deficiência visual, no planejamento de políticas públicas estaduais dentro de áreas diversas como, por exemplo, saúde, cultura, educação, trabalho, lazer, desporto.

Ocorre que findados 3 anos de nossa participação na Secretaria, absolutamente nenhum dos projetos que idealizamos e propusemos passaram. Mais do que isso, nenhum projeto que abordasse a temática da deficiência visual foi implementado, após quatro anos de existência da SEDPCD, nada ainda foi entregue visando à melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência visual no Estado de São Paulo.

Porém, de maneira irônica, no dia 19 de abril de 2012, esquivando-se mais uma vês das respostas sobre gastos da SEDPCD, que se nega a publicar os valores envolvidos em projetos inúteis e patrocinados por ela junto a instituições especiais, informação que cobramos há meses, a equipe da SEDPCD veio a público com a seguinte justificativa:

“(…) Cabe também registrar que a Secretaria sempre esteve aberta a parcerias e a recepção de projetos vindos da comunidade, dos profissionais e instituições que atendem pessoas com deficiência. Há um formulário no site (“envie-nos sua proposta de projeto”), no qual é possível apresentar idéias, sugestões e contribuições para ações e políticas públicas voltadas ao segmento das pessoas com deficiência (…)”.

Pela resposta destacada acima, fica evidenciado que a SEDPCD nos acusa de sermos críticos pela crítica, ou seja, vazios de propostas. Nesse sentido, sentimo-nos provocados a trazer a público todas as propostas de projetos sugeridas ou apoiadas por nós, dentro da Secretaria, por focarem a pessoa com deficiência visual ou o desenho universal, objetivando transformá-las em políticas públicas em nosso Estado.

Infelizmente todas foram rechaçadas de maneira estranha e incompreensível, mas cabe-nos agora a obrigação de darmos visibilidade às mesmas, Em primeiro lugar porque tratou-se de coisa pública discutida dentro de órgão público; em segundo lugar para que mostremos que temos competência suficiente para propor soluções que atendam nossas demandas; em terceiro lugar para que, quem sabe essas idéias expostas, algum outro Estado ou Município possa se interessar por elas, querendo dar continuidade e fazendo-as acontecer. Portanto, estamos dispostos a juntos arregaçarmos as mangas e fazermos acontecer.

Obs.: A ordem a seguir não obedece a nenhum tipo de cronologia ou importância, apenas numeramos as propostas para nosso controle.

1 – Livro acessível nas editoras das universidades públicas estaduais:
Proposta de projeto, em parceria com universidades públicas estaduais, visando que as editoras universitárias do Estado, EDUSP, EDUNESP E Editora da UNICAMP, inclusive a Imprensa Oficial do Estado, passassem a produzir livros em desenho universal, em formatos acessíveis para o público com deficiência visual, entre outras deficiências. Resposta da SEDPCD: Proposta Rejeitada.

2 – Livro acessível nas bibliotecas das universidades estaduais:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria Estadual de Ensino Superior, visando que as bibliotecas das universidades públicas do Estado, USP, UNICAMP e UNESP, fossem equipadas com tecnologias assistivas de baixo custo que permitissem a leitura de 100% dos livros dos seus acervos por alunos com deficiência visual. Além disso, criação de editais de compras públicas determinando que as novas aquisições para atualização dos acervos já fossem feitas exigindo-se também os livros em formatos acessíveis. Resposta da SEDPCD: Proposta Rejeitada.

3 – Proteção DRM para livros em formato digital:
Proposta de projeto, em parceria com LSITEC/USP, laboratório de tecnologia vinculado a USP, visando à criação de software de proteção DRM para livros digitais, favorecendo que editoras públicas e posteriormente o mercado editorial pudessem vender livros para pessoas com deficiência visual sem o risco da pirataria. Resposta da SEDPCD: Projeto iniciado e em seguida cancelado.

4 – Bibliotecas do município de SP acessíveis ao público com deficiência visual:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, para que fossem instaladas tecnologias assistivas de baixo custo em todas as 120 bibliotecas municipais da Capital, favorecendo a leitura de 100% dos livros de seus acervos aos usuários com deficiência visual entre outras deficiências. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

5 – Salas de leitura das escolas estaduais acessíveis aos alunos com deficiência visual:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria Estadual da Educação, visando à instalação de tecnologias assistivas de baixo custo em todas as salas de leitura das escolas estaduais de São Paulo, proporcionando acessibilidade a 100% do acervo de livros aos alunos com deficiência visual entre outras deficiências. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

6 – Criação de edital para compras de livros em formatos acessíveis pelo Estado:
Proposta de projeto, em parceria com a FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, visando à criação de edital de compras de livros para as salas de leitura das escolas estaduais, estabelecendo critérios obrigatórios de desenho universal para todos os livros adquiridos. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

7 – Bibliotecas municipais acessíveis no Interior do Estado:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria de Gestão Pública e Prefeituras do Interior, visando à implantação de tecnologias assistivas de baixo custo e softwares leitores de tela em todas as bibliotecas municipais do Interior do Estado de São Paulo, proporcionando acessibilidade a 100% dos acervos aos usuários com deficiência visual entre outras deficiências. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

8 – Telecentros acessíveis para cegos no programa Acessa São Paulo:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria de Gestão Pública, visando à implantação de computadores adaptados com softwares leitores de tela nos mais de 600 postos do Programa Acessa São Paulo, espalhados pela Capital e pelo Interior do Estado, para acesso e utilização de pessoas com deficiência visual, entre outras deficiências. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

9 – Criação de curso de especialização para audiodescritores:
Proposta de projeto, em parceria com a ECA/USP, Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, PUC, Prefeitura de SP, entre outros atores, visando à criação de curso de especialização Latu Sensu, para formação de audiodescritores. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

10 – Qualificação profissional para pessoas com deficiência nas escolas técnicas estaduais:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria Estadual do Trabalho e relações de emprego e Centro Paula Souza, visando à capacitação de pessoas com qualquer deficiência nas escolas técnicas públicas de São Paulo, ETECs e FATECs, além das escolas do sistema S, SENAIs e SENACs, incluindo as pessoas com deficiência junto com os outros alunos. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

11 – Cotas para alunos com deficiência nas ETECs e FATECs:
Proposta de projeto, em parceria com o Centro Paula Souza, visando à inclusão de alunos com deficiência nas ETECs e FATECs por meio do regime de cotas, semelhante ao adotado nas universidades federais. Sabendo que o percentual de alunos com deficiência nas ETECs e FATECs é praticamente nulo. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

12 – Fórum de discussão para Aceleração da regulamentação da Lei do Livro:
Proposta de projeto para que fosse realizado um fórum de discussão e apresentação de propostas para regulamentação da Lei Federal 10.753/03, Lei do Livro, que está sem regulamentação, no que diz respeito ao livro acessível para pessoas com deficiência visual, há 9 anos. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

13 – Maquetes táteis para monumentos e espaços culturais relevantes em São Paulo:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura, visando à implantação de maquetes táteis em monumentos e espaços de relevância arquitetônica e cultural na cidade de São Paulo, proporcionando que por meio do tato, pessoas cegas pudessem ter o conhecimento da dimensão e do valor arquitetônico e histórico de sua cidade. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

14 – Ônibus acessíveis para cegos na cidade de São Paulo:
Proposta de projeto, em parceria com Secretaria Estadual dos Transportes, visando a implantação de tecnologia assistiva nos Ônibus da Capital (dispositivos de áudio) proporcionando com que as pessoas com deficiência visual (cegos e baixa visão) pudessem acessar seu meio de transporte mais usual, o ônibus, de maneira autônoma e independente. A cidade de Jaú, no Interior do Estado, já faz isso em toda sua frota. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

15 –Receptor acessível para televisão digital:
Proposta de projeto, em parceria com LSITEC/USP, laboratório de tecnologia vinculado a USP, visando à criação de receptor e controle remoto acessíveis para pessoas com todas as deficiências. Por meio desses equipamentos, pessoas com qualquer deficiência poderiam comandar os menus e funções da televisão digital. Resposta da SEDPCD: Proposta rejeitada.

16 – Livros acessíveis para funcionários públicos com deficiência visual:
Proposta de projeto, em parceria com a Secretaria de Comunicação, para que fosse criado edital de compras de livros em formato acessível no âmbito do Governo Estadual visando o acesso de funcionários públicos com deficiência visual para seu aprimoramento profissional e pessoal. Ação da SEDPCD: Decreto criado sob o número 56.307/10. , sancionado em 2010 pelo governador em exercício Alberto Goldman, mas precisa ainda ser regulamentado. A SEDPCD não deu continuidade.

17 – Livros acessíveis nas editoras de São Paulo:
Projeto de Lei, escrito em parceria com a equipe da Deputada Célia Leão sob o número 227/11, tramitando na Assembléia Legislativa de São Paulo, visando à obrigatoriedade das editoras situadas no Estado, de comercializar seus livros publicados também em formato digital acessível para os consumidores com deficiência visual interessados. Ação da SEDPCD: Indiferença para o projeto.

E a SEDPCD poderá responder dizendo que os projetos não eram relevantes, mas todos?! Que os projetos não tinham verba disponível para sua aplicação, mas todos?! Que os projetos não seriam factíveis, mas todos?! E quanto as alternativas aos mesmos? Assim sendo, realmente não existe justificativa plausível para a rejeição total das propostas do nosso segmento. A única explicação que podemos supor é o absoluto desconhecimento e descaso para com as nossas necessidades associados à falta de compromisso e vontade política para priorizar essas demandas dentro das ações, projetos e programas promovidos pela Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo.

Ademais, dentro desse rosário interminável de propostas rejeitadas, indiscutivelmente prioritárias para nossa qualidade de vida, saber que a Secretaria investiu dinheiro público no projeto de um dicionário digital (*), absolutamente desnecessário, alegando ainda que o mesmo serviria para nosso aprimoramento profissional, cujo montante investido a SEDPCD se recusa a nos responder; causa-nos extremo desgosto, decepção e indignação, sentimentos difíceis de serem consolados.

Atenciosamente,

Naziberto Lopes
Idealizador, articulador e coordenador do MOLLA – Movimento pelo Livro e Leitura Acessíveis no Brasil.
www.livroacessivel.org/blog

(*) Existem dezenas de dicionários em formato digital acessíveis disponíveis gratuitamente na Internet que são utilizados por pessoas cegas cotidianamente quando necessário.

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Índia para inglês ver… Desde que não seja cego!

Publicado em: 21 de abril de 2012 às 14:11.

Ilustração: Fotografia da fachada do Taj Mahal - famoso palácio na Índia

Ilustração: Fotografia da fachada do Taj Mahal - famoso palácio na Índia

Prezados amigos de luta e militância na busca de uma sociedade inclusiva de verdade e não apenas nos discursos políticos. Quero compartilhar uma experiência incrível que tive esses dias quando fui convidado por uma amiga para acompanhá-la a uma exposição aberta no Centro Cultural Banco do Brasil.

Trata-se da exposição intitulada “Índia!”, isso mesmo, com exclamação e tudo. Ela está aberta lá na Rua da Quitanda, centro da cidade de São Paulo, como disse antes, no Centro cultural Banco do Brasil. Importante se dizer é que se trata de uma exposição patrocinada pelo Ministério da Cultura. Assim sendo, vejam bem, Banco do Brasil, instituição pública, Ministério da Cultura, nossa, um poderoso Ministério do nosso atual Governo Federal, liderado hoje pela Ministra Ana de Holanda, personagem conhecida e renomada no mundo artístico e cultural brasileiro.

Pois bem, com todas essas credenciais públicas, eu como sou parte do público, apesar de ser pessoa com deficiência visual, imaginei que certamente a exposição por ser pública e patrocinada por instituições públicas, jamais teria se esquecido que o público brasileiro é constituído de pessoas diversas, altas, baixas, gordas, magras, negras, brancas, amarelas, indígenas, novas, velhas, todas estas possuindo ou não alguma deficiência física, intelectual, sensorial, psicossocial, algumas possuindo até mesmo deficiência múltipla, ou seja, a soma de duas ou mais dessas deficiências. Afinal, segundo último Censo IBGE 2010 somos mais de 45,5 milhões de brasileiros diretamente afetados por alguma deficiência.

Se imaginarmos que nenhuma pessoa com deficiência nasceu de chocadeira, que ele tenha um pai, uma mãe e possivelmente um irmão, podemos facilmente multiplicar aquele número inicial por 4 e chegaremos aos impressionantes 182 milhões de pessoas no Brasil envolvidas direta ou indiretamente com alguma deficiência. Isso sem contar os amigos, parentes mais distantes ou conhecidos. Quer dizer, dificilmente no Brasil hoje alguém não tem uma pessoa com deficiência por perto, seja em sua família nuclear, seja ao seu redor, na sua rua, em sua escola ou em seu trabalho.

Postas essas colocações e esclarecimentos, voltemos ao meu passeio bucólico na exposição “Índia!”.

Chegando lá, a primeira coisa que minha amiga resolveu fazer foi perguntar a uma recepcionista se existia algum tipo de áudio-guia, aparelho geralmente utilizado em museus que contém informações pré gravadas com maiores detalhes sobre as obras expostas e ao toque dos dedos pode narrar a peça, a obra, o quadro, o vídeo que está sendo observado pelo visitante. Não se trata de um aparelho pensado para inclusão de pessoas com deficiência, mas sim para ampliação das informações passadas para qualquer visitante do museu ou outro centro de cultura.

A resposta foi que não havia nenhum áudio-guia. Entramos assim mesmo e minha amiga resolveu ser a minha audiodescritora no momento, de maneira bastante solícita, passando a ler em voz alta as diversas placas informativas das obras, descrevendo aquilo que ela conseguia captar do que estava sendo exposto. Bom, acho que não preciso dizer que nada ali tinha acessibilidade para pessoas cegas ou com baixa visão. Muitas coisas acondicionadas em caixas de acrílico transparentes, roupas, artefatos, afrescos. Muitas coisas expostas ao ar livre, mas sempre com uma placa dizendo: “É proibido tocar nas obras”.

Claro que eu, transgressor inveterado e iconoclasta como sou, logo comecei a passar o meu recado subliminar e fui metendo a mão em tudo que podia. Sárís, vasos, cântaros, telas das televisões, quadros, sem nenhum pudor ou falta de vergonha, afinal, os organizadores de eventos assim não tem vergonha alguma de excluir pessoas como eu, porque eu teria vergonha de mostrar-lhes que estão absolutamente alienados do novo paradigma estabelecido pela CDPD – Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU?

E a coisa foi rolando, algumas pessoas contratadas para fiscalizarem o comportamento dos visitantes olhavam feio, segundo minha amiga relatou, outros ficavam sem jeito de dar bronca, outros faziam de conta que não estavam vendo. Pena que eu não tinha um sorvete de chocolate na hora, seria muito legal ter as mãos todas lambuzadas de chocolate e mesmo assim ir tocando, dedilhando, deixando minhas digitais em tudo que aparecesse! Já sei, da próxima vez vou passar na padaria antes! Me aguardem exposições paulistanas!!

O mais insólito foi em um determinado ponto da exposição, existia uma fotografia de um gradil, não sei do que se tratava, mas diante da qual existia um totem com umas inscrições em braile. Nossa! Ficamos paralisados, eu e minha amiga, pois foi algo inesperado, um totem com braile perdido ali no meio. Bom, nele estava desenhado em relevo o mesmo contorno do gradil da foto exposta. Tudo muito circular, encaracolado. Eu fui passando os dedinhos e de repente um fiscal se aproximou e disse com voz séria: “é proibido tocar nas obras!”. Outra vez paralisamos, afinal, eu estava tentando ler o braile que estava ali explicando a foto.

Tentamos explicar para o fiscal que naquele caso o painel deveria ser tocado, pois do contrário, o seu objetivo não seria alcançado, quer dizer, o braile feito para informar algum cego pelo toque não informaria por não poder ser tocado! Nossa, parece até aquelas frases trava língua. Mas não adiantou muito, o cidadão que ali estava não sabia nem de longe o que significava braile, toque, tato, cego, deficiência, acessibilidade, inclusão, diversidade!! Acho que pelo menos o nome dele e o endereço de sua casa ele deveria saber Né? Ah, claro, ele também sabia que “É proibido tocar nas obras!!”. Claro que estou brincando um pouco porque se formos falar somente de maneira séria sobre um assunto desses isso aqui vai virar novela mexicana do tipo: “Os cegos também choram!!”.

Ao final deixamos a exposição, minha amiga contente por ter visto muitas coisas interessantes sobre a terra de Mahatma Ghandi, mas descontente por ter percebido a falta de respeito para com uma expressiva parcela da população que foi esquecida na montagem daquele evento. Eu, contente por ter podido saber alguma coisa da Índia graças à solidariedade dessa amiga, e descontente por não ter me lembrado de comprar um sorvete de chocolate antes de entrar lá!

Resumo da ópera: Como estamos criticando aqui em São Paulo a atuação das duas secretarias de governo criadas para a defesa dos direitos das pessoas com deficiência, a Estadual e a Municipal, que só dão bola fora no que diz respeito à inclusão e acessibilidade para pessoas com deficiência visual, temos agora que lembrar também para que existe a SNPCD, Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, lá em Brasília, bem longe de nós fisicamente e pelo que tudo indica bem longe de nós também estratégica e politicamente.

Vejam bem, estamos falando aqui do patrocínio do Ministério da Cultura, governo Federal, estamos falando aqui de Banco do Brasil, governo Federal, estamos falando aqui de acessibilidade, de direitos humanos, de diversidade humana, estamos falando de sociedade inclusiva, por fim estamos falando de Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, aprovada e ratificada pelo Governo Federal como emenda Constitucional.

A atual Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, antiga CORDE, tem o orgulho de escrever em todas as suas comunicações à sociedade que ela é um órgão vinculado a SEDH, Secretaria especial de Direitos Humanos, que por sua vez é um órgão vinculado a Presidência da república. Oras, vejam ai, Presidência da República, portanto, governo Federal! Bingo! Tudo em casa, tudo no mesmo nível. E daí perguntamos, onde está a articulação dessa Secretaria Nacional com os outros órgãos nacionais? Ministérios, Secretarias, autarquias e demais instituições?

Pelo jeito os critérios de acessibilidade, inclusão e sociedade para todos que prevê a CDPD estão muito longe dos olhos do Ministério da Cultura, do Banco do Brasil, dentre outros órgãos do Governo Federal. Muito menos se percebe alguma articulação entre eles e a Secretaria nacional das Pessoas com Deficiência, no sentido de promoção de políticas públicas que atendam as demandas do nosso segmento

Portanto, percebemos mais um furo no atual Plano “viver sem limite” lançado ano passado com pompa e circunstancia pelo governo Federal e pela SNPCD. Justamente essa exposição promovida e patrocinada por dois órgãos federais de extrema relevância, Banco do Brasil e Ministério da Cultura, que sem o menor constrangimento impuseram um limite insuperável para o público com deficiência visual, isto é, a completa inacessibilidade da exposição.

E para finalizar, como estamos falando da Índia, por que não uma frase do fabuloso líder político e religioso daquele povo, para jamais desistirmos de nossas lutas, porque se desistirmos delas, estaremos também desistindo de nossa liberdade.

“Estou firmemente convencido que só se perde a liberdade por culpa da própria fraqueza.”
(Mahatma Ghandi)

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