São Paulo, domingo, 23 de julho de 2017 - 13:50.

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ATA DE REUNIÃO.

CONSCEG - Conselho de Alunos Cegos e Amigos na Universidade.

Data: 19/03/2005.

Participantes:
Édi Carlos;
Elizabeth Marinho;
Fernanda Arruda Santos;
Jozi Manoela;
Lucas Divino de Souza;
Márcia Regina;
Naziberto Lopes;
Priscila Branca Neves.

Convidados:
Ana Paula Santana - Candidata aprovada no vestibular 2005 em Fisioterapia.
Grazia Bottino - Coordenadora de Educação Inclusiva.
Silvio Neves - comerciante.

PAUTA:

ANA PAULA:

Comentou que foi aprovada no vestibular 2005, para o curso de Fisioterapia. O supervisor do NAAPNE, disse-lhe ser preciso que ela tivesse uma conversa com o coordenador do respectivo curso. Ela respondeu: já que era preciso então falaria com ele. O coordenador, por sua vez, disse-lhe então, que a Universidade não teria como ajudar uma deficiente visual a se tornar uma Fisioterapeuta. Que os materiais não eram adaptados e que as disciplinas eram muito visuais e isso seria uma barreira muito grande para ela.

Dessa maneira, diz ter ficado muito irritada e resolveu trocar de curso e escolher Pedagogia. Mesmo assim, foi informada que só poderá começar o curso no próximo semestre, pois os materiais adaptados também não estão disponíveis para essa disciplina.

Diz que sua intenção de cursar Fisioterapia foi decorrente de uma vivência que já tem nessa linha que foi um curso de massoterapia, já concretizado, e que a deixou entusiasmada com a possibilidade de prosseguir na área.

Recebeu do grupo algumas cartas de apoio que lhe foram enviadas pela Internet, por parte de outras pessoas deficientes visuais, formados e atuantes nas mais diversas áreas de saber, por exemplo, Medicina, Direito e até um fisioterapeuta que a esclareceram sobre desistir ou não dos sonhos e escolhas.

Finalizando, diz que sonha em fazer duas faculdades, a segunda ainda Fisioterapia, porém, essa última não será na São Marcos, uma vez que lhe disseram que a mesma não está preparada para esse tipo de aluno.

ÉDI CARLOS:

Diz que está muito satisfeito com a receptividade dos colegas de sala, todos são muito acolhedores. Por outro lado, comenta sobre a boa vontade de professores, entretanto, fica clara e evidente, a falta de preparo de alguns para lidar com pessoas deficientes, assim como a desinformação a respeito de formas mais convenientes de adaptar suas aulas para uma pessoa cega. Diz que recebeu uma apostila enorme, mas que é manuscrita e, por isso, não é possível ser digitalizada. Fala que seu material braile não chega, e que já o enviou em formato digital para impressão há tempos.

Comenta que tem muitas apostilas inacessíveis e que está procurando meios particulares de imprimi-las em braile, pois tem provas marcadas e não consegue receber esse material da Universidade.

Cita que por mais que já tenha enviado mensagens eletrônicas reclamando a respeito do problema para a coordenação de seu curso, alguns professores ainda não estão fornecendo os materiais com a antecedência necessária para a devida preparação. Diz também que vai reservar o direito que lhe cabe de não fazer as provas, uma vez que ainda não recebeu o material para estudos e que segundo a LDB, é facultado ao aluno esse direito, ao sentir-se prejudicado pela falta de material didático e de apoio nas aulas.

Finalizando, informa que não foi instalado ainda o programa leitor de telas no laboratório que utiliza para suas aulas práticas. Dessa forma, o professor precisa ficar sentado ao seu lado o tempo inteiro, lendo as telas para ele. Acontece que o mestre tem outros alunos para cuidar e não pode ficar o tempo todo nessa posição, precisando deixá-lo sozinho em determinados momentos.

FERNANDA ARRUDA:

Comenta sua preocupação com a inclusão que é discutida na teoria em sala, mas não é praticada a contento na Universidade. Fala que a amiga Priscila não recebeu material braile algum até o momento, e que isso sim seria inclusão real, mas não está acontecendo.

Conta do protesto silencioso que idealizaram para que todos os alunos deficientes visuais adotassem que foi a colocação de uma tarja preta no braço, em sinal de luto pela inacessibilidade da Priscila no curso de Educação Inclusiva. Elas, por sua vez, além da tarja preta, estão usando crachás nos quais se lê a seguinte pergunta: "educação inclusiva?".

Finalizando, comenta que tem o apoio do restante do pessoal da sala e que é muito importante estar dialogando com os colegas e professores a respeito da teoria viva diante deles, ou seja, a presença concreta de uma pessoa que se encontra excluída dentro do próprio curso. Fica surpresa ao perceber a quantidade de leis que são discutidas dentro do mesmo, e na prática, percebe que acabam ficando somente no papel.

GRAZIA BOTTINO:

Contou um pouco da história do surgimento do curso de Educação Inclusiva, dizendo que é um esforço conjunto dela própria com sua experiência prática, por ser mãe de pessoa deficiente visual, e também da Universidade, e que mesmo sendo um curso ainda deficitário, é uma tentativa de começar a melhorar a inclusão e a acessibilidade. Disse sobre a surpresa dos professores envolvidos, com a chegada de uma aluna deficiente visual, e que estão cientes de que o curso se tornou mais rico com essa vivência, teórico-prática, de inclusão escolar. Comenta que o guia do CONSCEG, que, aliás, está agregando muito no que diz respeito as informações aos professores, deveria ser transformado em palestras para os mesmos. Conta que um de seus esforços é nesse sentido, isto é, trazer o CONSCEG para dialogar diretamente com os mestres, em reuniões sistemáticas, e para tanto está em contato com outros coordenadores a fim de que isso possa se dar, pois acredita que o guia é importante, mas o diálogo direto e objetivo entre alunos deficientes e professores é fundamental.

Acredita no trabalho do CONSCEG, dizendo que realmente a inclusão passa pelo diálogo, pelos esforços bilaterais e que todos devem buscar meios e soluções para equacionar esse problema.

Finaliza dizendo que somente o trabalho em conjunto e na mesma direção, possibilitará a concretização dos objetivos comuns que são a ampla inclusão e acessibilidade para todos.

LUCAS DIVINO:

Aponta que, assim como disse na reunião passada, continua um pouco confusa a ação de alguns professores, que lhe trazem as cópias dos textos de apoio somente no dia de sua utilização. Informa que já os avisou da antecedência necessária, mas nota que não está sendo tomado esse cuidado. Ressalva, porém, a professora Arlete que lhe trouxe todos os textos a serem utilizados no semestre, logo nos primeiros dias de aula, alguns em disquete, outros impressos. Também a professora Cristina Pellini que inclusive lhe emprestou um livro de sua propriedade, para que ele pudesse digitalizá-lo. Diz que a professora Miriam lhe propôs a idéia de solicitar uma reunião dos professores de Direito e o pessoal do CONSCEG, para o esclarecimento de algumas dúvidas.

Informa também que a maioria dos textos da profa. Arlete, já lhe foram entregues em braile. Inclusive dois panfletos que estavam colados no painel de informações de sua sala e, como ficou curioso a respeito depois que um amigo leu os títulos dos mesmos para ele, pediu a preparação ao NAAPNE e já recebeu essas informações. Informa que ficou satisfeito pela atitude do CEPRAJ, no qual os funcionários passaram a avisá-lo verbalmente dos eventos que estão ocorrendo. Uma vez que ele não tem acesso ao painel de informações.

Finalizando, diz que gostaria que todos os outros amigos deficientes visuais, estivessem recebendo seus textos em braile, satisfatoriamente, assim como ele, entretanto, não sabe por que isso não está acontecendo.

ELIZABETH MARINHO:

Diz que acredita que a inclusão é realmente um caminho de mão dupla, em concordância com a amiga Márcia Regina, relata que mesmo tendo um caso de pessoa deficiente na família, desde muito jovem, não tinha uma visão tão ampla das reais possibilidades de pessoas com essas características antes de conhecer os membros do grupo. Menciona que somente com a aproximação e o trabalho de ambos os lados, a inclusão efetiva, assim como a diminuição das barreiras, serão plenamente concretizadas.

Finalizando, comenta que os primeiros alunos do curso de Educação Inclusiva que é coordenado pela professora Grazia, deveriam ser os professores da São Marcos, evitando-se assim, tantos equívocos que já foram cometidos.

MARCIA REGINA:

Queixou-se de sua dificuldade em participar mais efetivamente das reuniões do CONSCEG, porém, sempre acompanhou as dificuldades de seu colega de classe que é deficiente visual, desde o início do curso. Sabe das enormes dificuldades que esse amigo vem passando e afirma que o caminho é esse mesmo, ou seja, a união de todos em torno de uma idéia, uma proposta, um trabalho.

Diz que somente a aproximação e a convivência, podem provocar transformações nas relações, e consequentemente a melhoria das condições de acesso para todos. Citando seu próprio caso, no qual narra que aprendeu a conviver com a deficiência somente agora, mesmo depois de tanto tempo de estudos em cursos anteriores, e só aprendeu devido ao fato de que agora ela pode conviver diretamente com a deficiência. Eliminando os medos, as dúvidas e os preconceitos, e que foram extintos com a relação direta entre ela e a pessoa deficiente.

Finalizando, espera que esse trabalho continue e que ela possa presenciar mais vezes, esse crescimento de auto-estima e garra para buscar seus objetivos, fatores que percebe cada vez maiores nos componentes desse grupo.

NAZIBERTO LOPES:

Comenta sua satisfação com todos os seus professores, sem exceção, pelo cuidado e pela forma com a qual receberam o guia, e notoriamente estão se direcionando por ele. Fala de sua alegria em perceber que a professora Miriam Vilarinho, ao final de cada aula, lhe pergunta se o material para a aula seguinte já foi preparado, já está em suas mãos e se ela pode fazer mais alguma coisa para ajudá-lo. Comenta do caso da professora Adriana, que teve uma atitude "pra lá de inclusiva", ao corrigir um texto inteiro por conta própria, depois que o Naziberto digitalizou e o texto ficou péssimo, cheio de erros e falhas, devido a ser uma cópia muito antiga e de péssima qualidade. O fato insólito é que esse mesmo texto, depois de corrigido para o aluno deficiente visual, foi colocado na pasta xérox da professora, porque os outros alunos também estavam reclamando da péssima qualidade do mesmo. Mostrando assim, claramente, que a inclusão de uma pessoa deficiente, foi desencadeante da inclusão de todas as outras sem deficiência. Comenta da professora Ana Lucia, que faz questão de narrar todos os filmes que exibe, mesmo que eles sejam dublados, para poder descrever-lhe algumas imagens que ela considera muito importantes para a compreensão da obra. Seu destaque negativo ainda é a falta de sinalização braile nas portas das salas, por mais que o grupo venha, a mais de um ano, mostrando o lado desagradável para uma pessoa cega que fica perdida dentro de uma Universidade que não tem uma placa em braile sequer, a providencia de instalar a sinalização continua sendo protelada constantemente.

Finalizando, diz que espera que a implementação de nosso jornal, possibilite uma ampliação dos debates sobre a inclusão e acessibilidade a mais pessoas freqüentadoras e formadoras de opinião dentro do universo acadêmico.

PRISCILA NEVES:

Diz que está se sentindo excluída dentro de um curso de educação inclusiva, pela total falta de textos em braile até então. Conta uma situação em que foi até a biblioteca buscar dois livros em disquete, segundo foi orientada pelo NAAPNE. Teve a resposta que os livros não estavam disponíveis naquele momento, porque o sistema estava fora do ar. Como não podia ficar esperando o sistema voltar, dirigiu-se à sua aula. Depois acabou recebendo os disquetes na hora do intervalo da aula do mesmo dia. Pergunta o seguinte: Como eu faria se não tivesse aula naquele dia e precisasse ir embora para casa, ficaria sem os livros? Isso acontece com o público em geral? Outra coisa que questiona é o fato de que o sistema não estava parado para os outros alunos, pois enquanto esteve esperando alguns minutos no balcão, percebeu a entrada e saída de livros para outros alunos. O que aconteceu realmente?

Comenta que, com relação aos textos digitalizados, está recebendo normalmente. Apenas os "folders" que deixou no NAAPNE, pois precisa saber o que se passa dentro da Universidade que frequenta, como qualquer outro aluno, esses ainda não foram nem digitalizados nem impressos ou braile, mas continua esperando. Diz que presenteou pessoalmente os seus professores com o nosso guia legal. Todos acharam muito importante essa atitude e disseram que vão procurar seguir as orientações. Contudo, ainda continua recebendo as cópias impressas dos textos para as aulas no mesmo dia delas, o que inviabiliza o seu uso. Assim como a amiga Fernanda, também está usando luto pela inacessibilidade, e o crachá, no qual questiona que educação inclusiva é essa.

Finalizando, comenta que, mesmo com todos os percalços, é bom poder freqüentar esse curso, trocar idéias com os outros participantes e juntos tentarem encontrar soluções e caminhos para a verdadeira inclusão, que em sua opinião, deve começar ali mesmo.

SILVIO NEVES:

Disse de sua experiência em ter acompanhado a filha Priscila, desde seus primeiros dias em escolas regulares, sabe das enormes dificuldades que são enfrentadas, por isso está se associando ao grupo e pretende oferecer sua ajuda para que todos possam chegar a um bem comum. Mais voltado para ajudar no jornal, de ante-mão se oferece para colaborar na produção do mesmo.

Finaliza dizendo que está a disposição para qualquer tipo de ajuda e trabalho em conjunto com todos.

JOZI MANOELA:

Trata-se de aluna da FITO - Fundação Instituto Tecnológico de Osasco e que associou-se ao grupo devido aos inúmeros problemas que vem enfrentando em sua jornada dentro da referida Fundação.

Descreveu casos muito sérios de preconceito aberto e declarado contra uma pessoa com deficiência. Fazendo um breve histórico, descreve uma situação em que um professor de nome Magri, em meio a uma sala repleta, disse textualmente a ela: "eu acho um absurdo uma cega querer estudar programação". Felizmente esse professor já foi afastado. Salienta que já devia estar mais adiante em seu curso, mas tem algumas DPS à cumprir, por total falta de condições de acesso a algum material de apoio. Narra a situação em que um professor de matemática quis obriga-la a utilizar uma calculadora financeira, sem qualquer tipo de adaptação. Uma outra situação na qual descreve que um ex-coordenador da área recomendou que ela trouxesse uma acompanhante para auxiliá-la nas aulas. Inclusive a Fundação lhe concedeu uma bolsa para cobrir os gastos com essa acompanhante. Conta que os computadores dos laboratórios não estão adaptados com leitores de tela. Diz que a nova diretoria parece estar disposta a modificar esse quadro pavoroso de falta de atenção com as suas necessidades básicas, a fim de realmente inseri-la no curso que freqüenta. Porém ainda está esperando algum tipo de providencia mais efetiva.

Finalizando, comenta que lhe foi concedida uma bolsa de estudos, porém, apenas a bolsa não tem sentido, caso sua forma de acesso autônoma ao curso seja totalmente impossibilitada, como atualmente vem ocorrendo.

Finalizados os dois primeiros itens da pauta do dia, passamos para o item seguinte que foi a discussão e aprovação da nova formatação do "Guia Legal".

O Guia foi remodelado e reestruturado, a fim de que se torne uma publicação oficial da Universidade.

Esse trabalho foi feito em conjunto entre a professora Beatriz Bernardes e o aluno Naziberto Lopes, discutido também em outras reuniões entre os responsáveis diretos pelo NAAPNE.

O novo modelo foi analisado detalhadamente e aprovado com pequenas alterações. O aluno Naziberto Lopes foi encarregado de fazer os consertos e encaminha-lo rapidamente à professora Beatriz para o conhecimento e devidas providencias de sua parte.

Passamos assim, para o último item em nossa pauta que foi a discussão e aprovação de nosso projeto de jornal.

Foram discutidas a sua linha editorial, os principais destaques e conteúdos em geral. A forma de distribuição e a quantidade a ser produzida.

Relação das atas:

 

Tudo sobre o CONSCEG - Conselho de Alunos Cegos e Amigos na Universidade.

 

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