São Paulo, segunda-feira, 20 de novembro de 2017 - 02:48.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

ATA DE REUNIÃO.

CONSCEG – Conselho de Alunos Cegos e Amigos na Universidade.

Data: 21 de maio de 2005

Participantes:
Édi Carlos;
Elisabete Carrão;
Elizabeth Marinho;
Fernanda Arruda Santos;
Jucilene Braga;
Lucas Divino de Souza;
Naziberto Lopes;
Priscila Branca Neves.

Convidados:
Cássio Santos;
Nélio de Andrade.

PAUTA:

ELISABETE CARRÃO:

Comentou sobre a sua satisfação de verificar o jornal do CONSCEG sendo impresso em braile pela Vivo Voluntário, dando uma dignidade muito grande a todos que precisam dessa forma de leitura, a fim de poderem se inserir nesse veículo de informação e não ficarem marginalizados dele. Pergunta a Universidade São Marcos... "E aí São Marcos, cadê a impressora braile?"

CÁSSIO SANTOS:

Participou desta reunião como nosso convidado e revelou como é feito o trabalho na UNICID, dentro do CAAD, para inclusão dos alunos deficientes visuais e que transcrevemos abaixo:

Iniciando, disse que atualmente trabalha como instrutor de informática dentro do CAAD, Centro de Apoio ao Aluno Deficiente. Quando entrou na Universidade, devido ao fato de ter computador e conhecer programas leitores de tela, todo material que precisou lhe foi fornecido por esse Centro. Trabalha também na biblioteca, revelando inclusive que dentro desta foi instalada uma seção braile, e os livros que estão completos e foram corrigidos, são impressos e catalogados no sistema IBV do Aleph, para consulta dos alunos dvs. Cássio é o responsável pelo treinamento e capacitação na área de informática dos alunos deficientes visuais, sejam da UNICID ou não. Atualmente o CAAD possui duas impressoras braile, de folhas soltas e formulário contínuo. Conta-nos que a UNICID tem um quadro de alunos deficientes visuais com cerca de 33 indivíduos, nas mais diversas áreas. O atendimento a esse público é feito por digitalização de textos, impressão braile e até mesmo gravação de cds com voz sintetizada, para pessoas que prefiram esse formato. A biblioteca braile é diversificada, porém, existem mais números de livros digitalizados, cerca de 400 nas diversas disciplinas. Possuem um programa de créditos voltado aos alunos videntes que quiserem corrigir os livros digitalizados de suas respectivas disciplinas. Os mesmos fazem isso no ambiente da biblioteca e a procura por esse serviço é grande. Comenta que a UNICID não descarta manter parcerias com outras Universidades para fornecer o material que for necessário aos seus alunos deficientes visuais. Já faz isso com a FIG e a UNG, ambas de Guarulhos / SP. Informa que os alunos cegos da UNICID têm todo material adaptado fornecido gratuitamente e os alunos de outras Instituições de Ensino fornecem apenas as folhas para impressão. Constatando a situação precária dos alunos da São Marcos, com relação à entrega de textos braile, disse que veio autorizado pela Chefe da biblioteca, Sra. Meire, e pelo Coordenador Geral do CAAD, Sr. Eduardo, a oferecer ajuda à São Marcos. Disse que bastaria enviar os textos por e-mail à biblioteca da UNICID, e os mesmos seriam impressos em braile. Avisa, entretanto, que o volume de trabalho é grande, fazendo com que os prazos de entrega sejam não muito rápidos, sendo necessário para isso, razoável antecedência no momento da remessa do material. Adianta que na próxima reunião do CONSCEG, trará os responsáveis citados aqui, que demonstraram vontade de participar, sendo eles o Sr. Eduardo e Sra. Meire.

ÉDI CARLOS:

Continua muito satisfeito com a sua turma, comentando que o pessoal de informática é muito unido, solidário e acolhedor. Agora com relação ao respaldo material e didático continua na mesma, não tem material braile para duas provas que acontecerão daqui a duas semanas, uma inclusive com consulta. Informa que o programa Virtual Vision instalado no laboratório 6 de informática é versão demonstrativa, por isso desliga a cada 30 minutos. Em determinados momentos, está em meio a uma rotina de programação quando o programa para de falar e ele simplesmente perde o trabalho. Quanto aos professores, tudo bem, dois deles em especial estão dando um "show" de aula inclusiva, são eles os profs. Fred e Constancio. Agora um acontecimento muito desagradável aconteceu com o prof. Ishi, de lógica de programação. Enquanto o mesmo desenhava um gráfico na lousa, um amigo que copiava, de nome Eugenio, questionou o prof. sobre como seria possível explicar aquilo para o amigo deficiente visual. Virando-se para eles o prof. respondeu que era uma coisa muito complicada mesmo e que ele teria que se virar para entender. Isso o deixou indignado e está pensando inclusive em procurar a Delegacia de Ensino e denunciar o professor responsável por essa agressão verbal. Informa que seis colegas de sala se prontificaram a testemunhar a seu favor. Com relação à matéria desse "professor", disse que esses mesmos amigos já se ofereceram a tentar lhe ajudar da maneira que for possível.

ELIZABETH MARINHO:

Comenta de sua satisfação em perceber o movimento do CONSCEG e agora do jornal CONSCEG-INDO crescer cada vez mais. Alerta que é necessário desenvolvermos estratégias para que possamos alcançar cada vez mais pessoas que atravessam as mesmas dificuldades. Faz esse pedido devido às repercussões por todos os lados por onde tem passado o jornal. Por ser irmã de pessoa com deficiência mental, pensa que as duas formas de inclusão mais difíceis sejam a visual e a mental, por isso, pede que divulguemos mais esse trabalho, esse grupo, oferecendo palestras, vivencias, informação e esclarecimentos a todos que estão precisando, e com a divulgação do jornal, passarão certamente a nos solicitar esse trabalho de conscientização mais amplo.

JUCILENE BRAGA:

Comenta que duas de suas professoras estão dando um verdadeiro "show" de aula inclusiva, fazendo de tudo, por conta própria, para permitir que ela seja incluída na sala. São elas a as profas. Vera Pasqual e Ana Silvia. A profa. Rosa melhorou um pouco seus esquecimentos e, por isso, comenta que não está sentindo mal-estar em suas aulas. O prof. Gildo enviou-lhe um arquivo em Power Point para que ela fizesse um trabalho, mas como ela não consegue imprimir braile a partir de uma fonte nesse formato, pediu que o mesmo lhe enviasse o arquivo no formato Word. Isso já faz algum tempo e nada foi lhe devolvido até agora, mesmo depois de três outros e-mails que enviou ao prof. solicitando os dados, pois a data da entrega do trabalho está chegando. Com relação ao apoio do NAAPNE, comenta que a profa. Rosa lhe avisou há mais de uma semana, que enviou uma folha, com mais ou menos 10 frases para serem transcritas para o braile, e o Núcleo ainda não lhe entregou nada. Inclusive a profa. Rosa andou lhe perguntando se já estava de posse dos textos. Comenta com muito pesar a falta de acessibilidade generalizada do campi Tatuapé, que não permite que ela entre e saia no momento que quiser. Deixando-a sempre na dependência da ajuda de amigos que nem sempre estão de bom humor e dispostos a ajudar uma pessoa deficiente visual a realizar tarefas tão simples e banais, como por exemplo, ir tomar um café, ir até a biblioteca, entre outras dependências do prédio, sem falar na entrada e saída da classe.

LUCAS DIVINO:

Comenta que está sentindo um aumento de seriedade no trato com os assuntos relacionados aos dvs. Para isso relembra que até 2002 não tinha praticamente nada fornecido pela Universidade. Conseguia se virar somente graças à ajuda do Instituto Padre Chico e um professor desembargador que até mesmo chegara a gravar fitas cassete para ajudá-lo em seus estudos. Hoje em dia, comenta que os textos digitalizados pelo NAAPNE estão chegando no prazo correto, se bem que com algumas falhas, erros, mas nada que não seja superável e que também não possa ser eliminado com uma boa administração e coordenação desse Núcleo. Numa escala de zero a dez, atribui nota oito para os serviços do NAAPNE para com ele. Alerta que o computador adaptado do campi Sagrada Família vive dando problemas no teclado, o pessoal da manutenção conserta, mas o problema vive se repetindo. Narra uma experiência desagradável e excludente com um professor que também leciona no curso de Psicologia. Com duas semanas de antecedência, esse professor anuncia que vai passar um filme. Lucas o questiona a respeito de fazer-lhe uma narração sucinta sobre o mesmo. O professor responde que se tiver que narrar o filme para ele, prefere não exibir o filme. Pensando que fosse ironia ou brincadeira mesmo, Lucas aguarda o dia. Quando então solicita a ajuda do professor. Este novamente diz que não vai narrar o filme porque vai sair da sala durante a exibição. Lucas então diz que poderia sair também e receber uma sinopse fora da sala mesmo. O professor mais uma vez responde que não iria narrar o filme, mesmo fora da sala. Todavia, o professor não saiu da sala e ficou fazendo comentários com outros alunos. Mesmo com tudo isso, Lucas não quer revelar o nome do professor em ata, dizendo que caso seja procurado por quem interessar poderá revelar o nome do mesmo, mas não gostaria de registrá-lo aqui.

NÉLIO ANDRADE:

Outro convidado do CONSCEG, que por se tratar de ex-aluno de Direito da São Marcos, no período de 1997 a 2002, veio nos contar alguma coisa de suas vivencias durante o curso.

Em primeiro lugar agradece o fato de ter recebido bolsa de estudos da Universidade, caso contrário, não teria conseguido concluir o curso. Faz menção a todos os funcionários que sempre lhe trataram com respeito e cortesia, inclusive alguns deles o ajudando nos momentos das provas, quando os mesmos ditavam-nas para ele. Afirma que em 1998, entregou ao coordenador do seu curso, a portaria do MEC que, entre outras coisas, determinava a adaptação da Universidade às normas de acessibilidade e inclusão. Entretanto, nada foi feito de concreto. Com relação aos materiais de apoio, leitura e didáticos, nada receberam, sempre precisando procurar fora o que era necessário. Em seus contatos com o Diretor da biblioteca do campi João XXIII, as informações que recebia eram sempre que os materiais eram difíceis e que ele deveria ir procurando outras fontes para obtê-los. Conta que o coordenador de Direito naquela época, de nome Carlos Alberto Cruz, começou a desenvolver o trabalho de incentivar algumas pessoas a digitarem o material, mas que também não surtiu efeito. Comenta que em seu desespero por material, procurou sozinho a UNICID, por saber do apoio existente naquela Instituição, revelando que a mesma inclusive chegou a sugerir um acordo à São Marcos, que o rejeitou. Narra um momento de total exclusão e humilhação dentro de sala de aula que foi uma prova para a qual a professora solicitou um livro específico. Como não tinha como ler esse livro em tão pouco tempo. Informou esse fato a professora. Foi quando a mesma lhe disse em voz alta e em plena sala de aula que ele deveria "se virar". Como reclamou na coordenação, a professora ficou sabendo e lhe aplicou uma prova oral, no meio da turma, e foi corrigindo suas respostas de maneira jocosa, constrangedora e humilhante para o aluno. Ao saber novamente dessa situação, o coordenador solicitou uma denúncia por escrito e finalmente essa professora foi demitida da Instituição. Perguntado se já ouvira falar a respeito do SAAPNE, diz que nunca ouviu, que havia começado na São Marcos, no curso de Informática, mas como não teve nenhum apoio, nenhum material, resolveu desistir e voltou para cursar Direito. Conheceu a Srta. Adriana Barssoti, que na época se dizia a disposição para ajudar, mas tudo que pediu a ela não lhe foi conseguido, sempre com a mesma dizendo-lhe que o material era difícil e não estava a disposição ainda, forçando-o a buscar sempre fora o que precisava dentro da Universidade.

PRISCILA NEVES:

Comenta sua satisfação com a professora Fátima, que desde o segundo dia de aula lhe forneceu todas as transparências do módulo que ela está ministrando. Infelizmente seu computador pessoal ainda se encontra danificado e não tem perspectivas de conserto tão cedo, e chegar mais cedo na faculdade para utilizar-se dos computadores do Núcleo também é impossível por enquanto, por isso não está podendo usufruir desses arquivos, mas isso não invalida a atitude da professora. Está concluindo a primeira metade do curso de Educação Inclusiva e até agora só recebeu em formato braile, metade dos testos da professora Anita, depois que já tinham sido utilizados no curso. Recebeu também dois livros que não foram utilizados por fazerem parte da bibliografia complementar do módulo da professora Mônica. Pelas suas contas já são mais de 60 textos braile que precisou e não teve oportunidade de ler. Ressalva que os professores em sala procuram compensar o máximo que podem, porém, a leitura dos textos de apoio para a melhor compreensão das explanações é fundamental e indispensável. Quanto a isso, eles nada podem fazer a não ser enviarem o material a ser impresso antecipadamente, e pelo que parece, estão fazendo, o problema está na impressão do material braile.

NAZIBERTO LOPES:

Comenta com certo desânimo e preocupação o desinteresse da Universidade São Marcos para com estas atas de reunião que são enviadas à mesma. Elas São enviadas para todos os coordenadores de curso que tenham em suas turmas algum aluno deficiente visual. Também são enviadas para Diretoria de Graduação, de Extensão, assessoria de Imprensa, e finalmente para a própria Vice-reitoria de Extensão, na pessoa da Profa. Luciane de Paula. Mesmo assim, não recebemos retorno de nenhum desses responsáveis. Por maiores que sejam as dificuldades aqui apresentadas, os conflitos, os erros de procedimentos, as situações constrangedoras descritas com riqueza de detalhes, nada parece fazer efeito ou provocar movimentos do outro lado. Caso eles estejam acontecendo, não ficamos sabendo, e parece que deveríamos ser os primeiros a saber. Não somos chamados à discussão, não somos procurados, seja de forma particular ou grupal, deixando-nos com a impressão que somos totalmente e completamente ignorados. Como se tudo estivesse as mil maravilhas e nossas denúncias e sugestões fossem completamente descabidas e desnecessárias. Por mais que alertemos sobre a inabilidade de pessoas envolvidas com esses assuntos, como no tratamento das provas braile, por exemplo, mais parece que a situação fica atrapalhada. As providencias que são tomadas nos parecem apressadas e confusas. A contratação da Srta. Adriana, que juntamente com a Profa. Navajas, já haviam sido afastadas via abaixo assinado pelo grupo que elas diziam apoiar, é demonstração mais do que clara que existe uma "escuta surda" para com nossas reclamações, sugestões e mal-estar. No caso específico de provas, continuamos a perceber a demora na correção, transcrição, devolução, o que irrita profundamente os alunos, desconcerta os professores e causa mal-estar geral.

Notamos a falta de sistematização, antecipação, metodologia de procedimentos, cuidado com os detalhes, enfim, falta de controle e coordenação, justamente numa instituição na qual aprendemos tanto o cuidado com a metodologia criteriosa. Relembrando toda a discussão sobre o "Guia Legal", que tomou horas e horas de conversas e trabalho metódico, o mesmo parece estar até agora engavetado e não se tem notícias a respeito, a não ser que será adotado no semestre que vem, mas trata-se de assunto urgente urgentíssimo, afinal percebemos diariamente que os professores estão completamente perdidos com relação a esses procedimentos. Os professores são as pontas do iceberg e é na relação em sala de aula que os conflitos explodem, justamente porque o respaldo da Universidade, o apoio da retaguarda para os mestres e alunos está confuso. Ora tomam-se atitudes unilaterais, equivocadas, que somente desperdiçam verba e não produzem efeito satisfatório, ora ignoram-se procedimentos fundamentais e que com o mínimo de cuidado, interesse e conhecimento de causa seriam resolvidos facilmente. Sendo assim, conclui que realmente é muito penoso verificar esse tipo de procedimento por parte de uma Instituição de Ensino que tem tudo para se tornar vanguarda nesses assuntos. Entretanto, algumas cristalizações de procedimentos arcaicos e fora de contexto ainda insistem em se estabelecer. Precisamos de competência e criatividade urgente no tratamento desses assuntos, caso contrário, nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, será capaz de sobrepujar comportamentos que não parecem ter compromisso ou boa vontade para com essa problemática, tratando-a de qualquer maneira. Ao notarmos a fala dos Srs. Cássio e Nélio, podemos realmente nos certificar que as soluções existem e já foram sugeridas há muito tempo, porém, só nos resta acreditar que exista uma má vontade dentro da Instituição que permeia essas discussões. Esse problema não será solucionado sem diálogo e sem a participação dos maiores interessados em resolvê-los que são justamente aqueles que sofrem as conseqüências dessa confusão. Sem deixarmos de lado os egocentrismos e as vaidades exacerbadas por parte de todos os envolvidos, não será possível nenhum avanço, por mais que se invista nesse setor. As máquinas e aparelhos sofisticados nada podem fazer se não forem bem administradas com envolvimento e com conhecimento adequado.

Relação das atas:

 

Tudo sobre o CONSCEG - Conselho de Alunos Cegos e Amigos na Universidade.

 

Voltar ao topo da página.

Copyright © 2008 Livro Acessível.
Todos os direitos reservados.