São Paulo, sexta-feira, 23 de junho de 2017 - 17:46.

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A História da leitura para pessoas com deficiência.

Pretendo apresentar algumas informações importantes que farão com que os meus visitantes se situem um pouco melhor, a respeito de como as pessoas cegas vieram se apropriando das informações e dos conhecimentos produzidos de maneira gráfica até hoje pela humanidade. Conhecimentos em sua imensa maioria armazenados em suportes inacessíveis, desde o advento da escrita. Quero que você acompanhe os meios pelos quais essas pessoas vieram conseguindo essa apropriação, quais as maneiras que foram pensadas e ainda vem sendo construídas, com o objetivo de auxiliar diretamente a pessoa cega no acesso à informação, assim como, aquilo que foi aproveitado e adaptado pelas pessoas cegas, derivados das experiências das pessoas videntes.

Encontramos em Veiga (1946) a indicação que, no século XVI, tem-se notícia de um médico, Girolinia Cardono, na cidade de Paiva, Itália, que ensinava os cegos a lerem por meio do tato, começando, assim, essa instrução. Segundo esse mesmo autor, no século XVII surgiu a idéia de se produzir as letras em relevo, com uma tinta grossa que o tato reconhecesse. Para dar altura suficiente, a tinta tinha que ser tão grossa que secava antes mesmo de ser produzida a escrita no papel. Veio então a idéia de uma cânula grossa que continha a tinta sem contato com o ar, da qual escorria para a pena que traçava as letras (bisavó das canetas tinteiro).

Mais tarde, por volta do final do século XVII, teve-se a idéia de se fixar os tipos de imprensa em hastes arrumadas de modo que os cegos pudessem escrever, batendo com essas hastes (bisavó das máquinas de escrever). Embora tenham sido feitas outras tentativas, no campo da instrução de cegos, somente com Valentin Hauy, em 1784, é que foi fundada na cidade de Paris, a primeira escola para cegos, chamada Instituto Nacional para jovens cegos, onde o aprendizado da leitura era feito pelo tato, decifrando-se letras comuns, em relevo, num papel mais grosso. Seguindo pelas indicações de Veiga (1946), descobrimos que Charles Barbier, oficial do exército francês, a partir da idéia de que cegos liam no "escuro", desenvolveu um código militar, que possibilitasse a comunicação noturna entre os oficiais em campo de guerra, mas como não obteve êxito entre os militares levou o seu invento para ser testado pelos alunos cegos na escola de Hauy, onde o jovem Louis Braille , em 1825, tomando conhecimento deste invento, desenvolveu, a partir da significação tátil dos pontos em relevo de Barbier, o Sistema braile em 1837, que se tornou a estrutura básica do sistema ainda hoje utilizado mundialmente.

Não tenho dúvida de que a invenção do braile foi uma revolução, em termos de comunicação e informação para pessoas cegas, e durante muito tempo o braile foi exclusivamente a maneira de escrita e leitura para cegos em termos mundiais. Mas avançando no tempo verificaremos quando e como as pessoas com deficiência visual começaram a ampliar e diversificar o seu acesso às informações e ao conhecimento. Passamos pelos diversos tipos de gravadores, instrumentos que conseguiam captar a voz humana, registrando-a em diversos suportes, para posterior reprodução. Desde os mais antigos com suas fitas magnéticas, passando pelos portáteis e suas fitas cassete, até chegarmos aos mais modernos que são os mini gravadores digitais, estes sempre vieram no auxílio de pessoas com deficiência visual e sua busca para captação, transporte e armazenamento de dados.

É grande ainda hoje a existência de muitos acervos de fitas gravadas contendo livros falados. Ferramentais para a escrita braile também foram se aperfeiçoando, desde a velha reglete e punção manuais. Por volta da década de 30 do Século XX foram desenvolvidas máquinas braile mecânicas e elétricas, por uma empresa americana chamada Perkins, http://www.perkins.org Site externo em inglês., e até hoje são utilizadas por pessoas cegas como meio de registro de informações em escolas, no trabalho, em casa, etc.. Surgiram também as primeiras imprensas braile, equipamentos de grande porte para produção de textos braile em grande escala. Tratava-se de aparelhos semelhantes à imprensa convencional, porém, os seus resultados eram a produção de chapas de alumínio em alto relevo as quais, posteriormente, eram utilizadas para imprimir grandes quantidades de material braile.

Nossas informações dão conta de que, por volta da década de 50, a Fundação para o livro do cego no Brasil, que atualmente se chama Fundação Dorina Nowill, http://www.fundacaodorina.org.br Site externo., já possuía uma dessas imprensas e desenvolvia os primeiros serviços de confecção de livros braile e apoio a leitura dos cegos no Brasil, sendo uma das pioneiras nesse campo. Um equipamento pensado especificamente para auxiliar os cegos foi o Termoform, um dispositivo utilizado para fazer desenhos em braile, pois as imprensas e máquinas braile eram capazes de produzir apenas letras e textos lineares e o Termoform veio no sentido de permitir que desenhos irregulares, assim como mapas e gráficos, também fossem construídos. Trata-se de um sistema de moldagem por vácuo de uma película plástica aquecida, que é desse modo comprimida contra um molde (a preparação deste molde pode ser efetuada por processos informatizados ou artesanais). Também pode ser utilizado para confecção de cópias de textos braile.

Avançando um pouco mais nos encontraremos por volta da década de 70 quando os primeiros equipamentos mais aperfeiçoados tecnologicamente começaram a surgir no Brasil, objetivando auxiliar a vida de pessoas com deficiência visual. A partir de 1975, a Fundação Dorina Nowill passou a capacitar pessoas cegas, no uso de um aparelho que havia sido lançado a época e que foi batizado de Optacom. Este se constituía em uma placa de cobre, ligado a uma câmera que, ao focar o papel, transmitia por ondas eletrostáticas sobre essa chapa de cobre os contornos das letras ou desenhos que estavam sendo focalizados pela câmera. A pessoa cega, ao deslizar a mão pela chapa, podia sentir, por meio de micro choques, a eletrostática produzida que lhes dava a possibilidade de perceber os contornos das imagens. Foi a primeira vez que pessoas cegas conseguiram tomar contato com a forma escrita pelas pessoas videntes.

Com a chegada da informática de grande porte, uma iniciativa pioneira no Brasil, por volta do final da década de 70, foi a criação de um programa batizado de LIBRA, "Listador braile", desenvolvido por programadores com deficiência visual da PRODAM, Companhia de Processamento de Dados do Município de São Paulo, http://portal.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/empresas_autarquias/prodam Site externo., que realizava, através de adaptações em impressoras convencionais, a impressão de caracteres braile, permitindo que esses programadores não precisassem mais de ledores humanos para lhes ajudar na correção e finalização de seus programas. Essa invenção foi tão importante que acabou recebendo um premio da OIT, Organização Internacional do Trabalho, reconhecendo seu mérito na busca de soluções criativas para uma melhor inserção de pessoas cegas no mercado de trabalho.

Nessa época, início da década de 80, os programadores com deficiência visual, quando precisavam se utilizar dos terminais de vídeo, guiavam-se apenas por pequenos "bips" que eram emitidos pelos terminais com o auxílio de um programa que eles chamavam de "FEEDBACK", a cada vez que tentavam criar algum sistema. No entanto, a IBM, por volta dessa mesma época, desenvolveu o primeiro sintetizador de voz para um terminal de computador. Ele foi batizado de ROSCOE. Foi a primeira vez que a voz foi reproduzida de maneira informatizada, com a preocupação de informar uma pessoa que não enxerga sobre o que está se passando na tela do computador.

O surgimento dos micro-computadores pessoais, por volta do final da década de 80 e início da década de 90, revolucionou a vida de pessoas com deficiência visual. Com isso, iniciou-se a produção de ferramentas e programas que facilitassem a vida de pessoas cegas e sua interação com essas máquinas. Foram surgindo os primeiros "scanners", as primeiras impressoras braile compactas e pessoais, os softwares leitores de tela e sintetizadores de voz mais avançados e apropriados para esse tipo de computador. Como sintetizadores de voz, podemos citar um dos pioneiros que foi o JUNO, fabricado pela americana DOLPHIM, http://www.dolphim.com Site externo em inglês., que tinha uma voz melhor que a do ROSCOE, além de poder ser programada em diversos idiomas. Com relação aos softwares leitores de tela, os primeiros que surgiram foram o BRIDGE, produzido no Canadá pela SYNTHAVOICE, que, infelizmente, já foi fechada, e o JAWS, fabricado nos Estados Unidos pela HJ, http://www.hj.com Site externo em inglês..

Esclarecemos que a diferença básica entre um sintetizador de voz e um programa leitor de telas, é que esse último vasculha a tela do computador, atrás das informações e envia-as para o sintetizador de voz que pode reproduzi-las em voz alta, para uma pessoa com deficiência visual que esteja utilizando um micro-computador com alto falantes ou fones de ouvido.

Com relação aos "Scanners", podemos dizer que foram criados não especificamente para o público cego, mas sim para facilitarem a introdução de imagens e desenhos gráficos nas memórias dos micro-computadores.

Ocorre que eles se revelaram equipamentos muito interessantes para os cegos, pois se eles conseguiam levar as imagens para dentro dos computadores, porque não levariam também as palavras escritas em livros e todo tipo de texto impresso a tinta? Dessa maneira, com a ajuda de programas próprios, os chamados O.C.R., Reconhecedores Óticos de Caracteres, tornou-se fácil captar a imagem de páginas de livros e introduzi-las na memória dos computadores.

Este procedimento associado à tecnologia dos softwares leitores de tela e sintetizadores de voz, permitiu que uma pessoa cega conseguisse captar a página de um livro como uma imagem, a seguir transformasse essa imagem em texto digital, e solicitasse que os softwares leitores de tela fizessem a leitura do texto. Porém, este não é um procedimento que resulte em um texto esteticamente perfeito e limpo, o que gera problemas de compreensão na leitura.

No Brasil, em 1993, surgiu o Projeto Dosvox, http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox Site externo., desenvolvido na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, UFRJ, idealizado pelo Prof. Luiz Antonio Borges, devido à entrada de um aluno com deficiência visual em uma de suas turmas no curso de Informática. Tratou-se de um sistema operacional todo próprio, desenvolvido no Brasil especialmente para cegos, que recebeu o nome de DOSVOX. Um sistema operacional muito amigável e acessível que pode ser adquirido gratuitamente pela Internet.

Por volta de 1998, surge o programa leitor de telas "Virtual Vision", desenvolvido pela Micro Power do Brasil, http://www.micropower.com.br Site externo., que é um software leitor de telas que associado a um sintetizador de voz (Delta Talk), também produzido pela Micro Power, consegue reproduzir a voz humana de maneira muito eficaz, tornando sua pronúncia do idioma português, uma das melhores do mercado. Esse programa ampliou ainda mais a entrada de pessoas cegas no universo da informática, pois é um grande facilitador para que essas pessoas possam utilizar-se das mesmas ferramentas que as pessoas videntes costumam utilizar em seus computadores pessoais. Ademais, ele também pode ser adquirido gratuitamente junto ao banco Bradesco ou banco Real, por qualquer pessoa cega que seja cliente desses bancos, ou então que abra neles ao menos uma conta poupança simbólica.

Em 2005, surge o programa LETRA, desenvolvido pelo SERPRO com o apoio do MEC, com o mesmo objetivo, ou seja, proporcionar acesso à leitura para pessoas com deficiência visual, ainda em fase de desenvolvimento. A partir de todo esse histórico posso agora relacionar os meios mais utilizados por pessoas cegas para acessarem os livros, a leitura e a informação, além dos prós e contras de cada um deles.

1 - Pelo formato impresso em braile. Tem como ponto forte a questão da primeira alfabetização para crianças que nasceram cegas e o contato direto da pessoa cega com a forma escrita das palavras por meio do tato. O lado negativo seria o grande volume dos livros, por menores que sejam em sua forma impressa a tinta, quando transcritos para o Sistema braile tornam-se imensos e dificilmente podem ser transportados junto com a pessoa, até mesmo se tornam inviáveis para o seu armazenamento na própria casa da pessoa cega, exigindo grandes espaços como os de uma biblioteca, por exemplo.

2 - Pelo formato gravado em áudio, que pode ser produzido com o som da voz humana ou mesmo da voz sintetizada eletronicamente. Tem como ponto forte a questão da facilidade de transporte de um livro gravado, seja em fitas cassete ou atualmente em cd-rom, a pessoa cega pode levar consigo os livros para a leitura quando quiser, também com relação ao poder aquisitivo da pessoa cega, o acesso a este tipo de livro não requer grandes investimentos em tecnologias avançadas. O ponto negativo fica por conta da não possibilidade de interação com a grafia das palavras, fazendo com que muitas pessoas cegas que foram alfabetizadas apenas com livros falados, escrevam as palavras grafando-as com o mesmo som da palavra, ou seja, da maneira fonética. Verificam-se erros tremendamente grosseiros, mas que são inevitáveis para quem apenas ouviu falar na palavra e nunca teve a oportunidade de saber como ela é soletrada.

3 - Pelo formato digital. O ponto positivo aqui fica por conta da facilidade de juntar a audição do texto com a possibilidade de fazer-se a verificação da grafia das palavras. Por meio dos softwares leitores de tela as pessoas cegas acessam de maneira completa os textos e a informação de maneira muito rápida e precisa. O ponto negativo seria a questão do investimento que é necessário, uma vez que é preciso ao menos um computador e um software leitor de telas para que o acesso ao livro seja possível. Com relação a facilidade de transporte não poderíamos dizer que é um complicador, visto que hoje temos os lap tops, os Palms, notebooks e também pessoas cegas que conseguem carregar seus livros digitais até mesmo dentro de alguns celulares mais avançados.

 

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