São Paulo, segunda-feira, 26 de junho de 2017 - 15:51.

Livro Acessível Universal - Página inicial [1].

O MOLLA no programa "DE IGUAL PARA IGUAL" - Rádio Universitária FM de Uberlândia.

PROGRAMA TROCANDO EM MIÚDOS
DE IGUAL PARA IGUAL Maio/2007
Advogada Ana Paula Crosara de Resende
Transcrição: Daiane Gonçalves Lacerda
Assunto: Entrevista Naziberto Lopes - Livro acessível

Mais uma vez estamos aqui no Quadro de Igual para Igual ano II o assunto de hoje é o livro acessível. O e-mail anapaulacrosara com "s" @gmail.com está a disposição para sugestões, críticas e dúvidas e também para o envio do texto transcrito para aqueles ou aquelas que têm dificuldades de audição e que gostariam de ser incluídos. Caso você não tenha acesso a internet pode ligar no meu escritório de advocacia (34) 3212 3866.

O tema de hoje é o Livro Acessível e eu vou começar com uma carta aberta.

(leitura da Carta Aberta)

Conosco aqui na ponta da linha está o Naziberto Lopes, ele é psicólogo, e é militante um batalhador incansável pelo livro acessível e é o coordenador desse movimento pelo livro acessível.

Ana Paula: Bom dia Naziberto.
Naziberto: Bom dia Ana, tudo bem?

Ana Paula:
Tudo bem, obrigada por ter aceito o nosso convite.
Naziberto: Obrigada você pelo convite, a honra é minha.

Ana Paula:
Me conta uma coisa, como é que foi? Como é que começou essa luta pelo livro acessível?
Naziberto: Ela começou basicamente quando eu entrei na universidade.

Ana Paula:
Sei.
Naziberto: Quando eu me defrontei com a total e completa falta de leitura adaptada às pessoas cegas como no meu caso. Só para você ter uma idéia, na biblioteca da universidade que estudei tinha cento e cinqüenta mil títulos de livros.

Ana Paula:
Nossa um tanto bom, ne?
Naziberto: Isso para as pessoas que enxergam. E para as pessoas que não enxergam não tinha nenhum.

Ana Paula:
Que bom hein, "coerente", igual, exatamente igual.
Naziberto: É, bem ali, pau a pau vamos dizer assim.

Ana Paula:
E logicamente você como todo aluno tinha que apresentar os trabalhos, tinha prazo, tinha prova, tudo isso.
Naziberto: Claro com certeza.

Ana Paula:
E o que que é esse danado desse livro acessível?
Naziberto: Olha Ana, quando nós dizemos livro acessível, nós estamos querendo dizer livro em desenho universal. O que é um livro em desenho universal? É um livro que seja possível de ser lido pelo número maior de pessoas, Como a gente fala no nosso manifesto, não é a maioria das pessoas. Porque a maioria das pessoas enxerga você concorda?

Ana Paula:
Concordo.
Naziberto: A maioria das pessoas do mundo são videntes e conseguem acessar o livro em formato impresso normalmente, o que chamamos de formato convencional. Agora as pessoas que não enxergam, as pessoas que têm baixa visão, as pessoas que têm algum tipo de deficiência motora. Por exemplo você imagina uma pessoa que não tem os braços, como é que ela faz para virar a página de um livro? Como é que ela faz para ler? Uma pessoa que tem mal de Parkinson, com as mãos trêmulas, como é que ela vai fixar a leitura? Então o livro em desenho universal não é um livro para cego, é um livro para que o maior número de pessoas possível possa acessar a informação escrita, a cultura e o conhecimento.

Ana Paula:
Certo. Esse livro em desenho universal ele é digital, ele é áudio livro, ele é como?
Naziberto: Ele é um livro em formato digital, pode ser de repente um CD Rom, mas dentro dele você tem toda a potencialidade para as pessoas acessarem. Então você tem, o texto formatado para ser impresso em braile. Você pode ter o texto ampliado. Você tem o recurso de ver na tela o que está escrito, Você tem o recurso para as pessoas que não enxergam totalmente como eu, de ter um programa leitor de tela no computador e esse programa vai ler o livro pra você, pode soletrar as letras, as palavras.

Ana Paula:
O importante é a gente deixar claro Naziberto, porque o nosso ouvinte nem sempre tem contato com essa realidade.
Naziberto: Claro.

Ana Paula:
Então assim, a importância disso. Porque, por exemplo, se pode soletrar, você vai saber se escreve com s ou com z. E principalmente no caso de crianças.
Naziberto: É verdade.

Ana Paula:
Que estão na fase de alfabetização.
Naziberto: É. Na verdade Ana, durante a fase de alfabetização, a criança cega precisa do braile. Porque o braile é o contato inicial com as letras, a questão das palavras, a montagem das palavras. Então a criança precisa do braile, mas ela não precisa só do braile, porque se não você defenderia também que uma criança de 5, 6 anos hoje que a gente vê por ai não tivesse seu computador em casa. E eles têm. As crianças hoje ai dão um show no computador na frente dos pais. E por que a criança cega tem que ficar restrita somente ao braile? Ela pode ter, ela pode não, ela tem que ter o livro braile sim, mas ela pode ter outros livros em outros formatos para ler no computador, para escutar no tocador de cd, a vontade dela.

Ana Paula:
É e o áudio livro também é para estimular, ne?
Naziberto: Claro, claro. É pra estimular a busca da informação, pela cultura, pelo desenvolvimento, o lazer, tudo isso.

Ana Paula: Com certeza. Naziberto você propôs algumas ações individuais contra as editoras, como foi isso?
Naziberto: Bom. Eu procedo da seguinte maneira Ana. Sempre que eu preciso de um livro na faculdade eu faço o que? A primeira coisa é ir atrás da editora que publica aquele livro para tentar comprar. Graças a Deus eu sou uma pessoa que tem uma condição que posso comprar esse livro. Então eu procuro comprar, só que sempre que a editora coloca algum empecilho dizendo que não pode vender para mim, porque se vender para mim eu vou copiar, jogar na internet, me acusando de ser pirata, a primeira coisa que eu faço é procurar o meu direito na justiça. Eu processo a editora sim, vou no tribunal de pequenas causas, ninguém precisa ter dinheiro para isso. O tribunal de pequenas causas você não precisa gastar com nada, nem advogado você precisa ter. E eu processo aquela editora para que ela passe a respeitar o direito que eu tenho de leitura, isso está na constituição. Que todos nós temos direitos a educação, a cultura, ao conhecimento.

Ana Paula:
Bom. Então, mas o seu processo é para comprar o livro no formato que você possa ler?
Naziberto: Exatamente.

Ana Paula:
É basicamente isso que você quer?
Naziberto: Basicamente isso. Eu faço o seguinte acordo com a editora. Olha você me vende o livro, eu compro o livro em papel, sem problemas, mas desde que você me mande junto a maneira para eu ler esse livro, que seria o livro digital. E eles começam a colocar todos esses empecilhos e eu vou e processo mesmo.

Ana Paula:
Certo. Você já ganhou Naziberto?
Naziberto: Já, já. Na verdade algumas. quando a gente fala do processo, quando o ministério público chega ou quando tem alguma comunicação eles já entram em contato para fazer um acordo para mandar o livro. Ou então quando chega nas audiências de conciliação vem lá com o livrinho para me apresentar.

Ana Paula:
E eles também fazem algumas propostas indecentes, por exemplo, filie-se a uma entidade que nós vamos mandar para eles?
Naziberto: Isso é terrível. Isso é terrível. A primeira coisa que eles falam é o seguinte, olha a gente não vai te vender esse livro, mas você pode fazer o seguinte, você procura uma fundação de assistência as pessoas cegas carentes e a gente manda esse livro para lá e você pega lá de graça. Então, quer dizer, eles ofendem a gente de várias formas, primeiro acusando de ser pirata, de ser bandido, depois acusando a gente, achando que toda pessoa cega é carente, é pobre, é miserável e precisa da assistência de uma fundação, enfim, de um instituto de pessoas cegas. Então, quer dizer, eles colocam a credibilidade no instituto e tiram totalmente a credibilidade da pessoa que no caso sou eu.

Ana Paula:
Certo. Bom, mas também além dessas ações individuais você está encabeçando aí uma carta aberta pelo livro acessível.
Naziberto: É verdade.

Ana Paula:
Me conta como é que é isso. Não para mim não, para o leitor, para o ouvinte.
Naziberto: Bom. É assim, eu sempre estou tentando instigar as pessoas cegas, basicamente as pessoas cegas para que a gente lute por esse direito, porque é um direito que a gente tem constitucional. É claro que não existe uma lei clara a esse respeito, mas é um direito que está na constituição. Então eu procuro sempre estimular as pessoas a fazerem, a se unirem pra tentar conseguir ratificar esse direito.

Ana Paula:
Bom, Naziberto eu já vou dar um palpite aqui. É, desculpa eu deixar um pouco de ser entrevistadora, mas o princípio constitucional da igualdade, então você enquanto consumidor tem que ter o formato adequado a sua necessidade e hoje assim, sinceramente, é um absurdo falar que não tem o livro no mínimo em formato digital, porque todo mundo escreve em computador, ninguém fica escrevendo livro no papel para alguém traduzir, pra alguém, ne? Todo mundo escreve no computador, então todos os autores e as editoras eles tem no formato digital.
Naziberto: É verdade. A grande desculpa deles é o seguinte Ana, o livro em formato digital não tem como ser protegido, então se cair na mão de alguém vai se reproduzir pela internet em milhares de vezes,

Ana Paula:
Ah e a cópia você não faz não, qualquer, desculpa a expressão, mas qualquer boteco?
Naziberto: É, é como se o livro impresso não pudesse ser copiado. Quer dizer, se você pega um livro convencional ai na sua mão, quando você coloca ele na copiadora ele automaticamente se desintegra. É como se tivesse aquele botão do Missão Impossível . esse livro vai se destruir daqui 5 segundos. Então quer dizer, não existe, a única coisa que faz com que uma pessoa não copie um livro a tinta é a moral dela, é a ética dela, é a "internalização" que ela tem das leis e tudo mais. Só que a pessoa cega não tem esse direito, Ana, a pessoa cega no Brasil ela é considerada culpada até que prove o contrário. É uma inversão total de leis; você é advogada você sabe disso, pela nossa lei todo mundo é inocente até que prove o contrário. O deficiente visual, a pessoa que não tem condições de ler um livro convencional não, ela é culpada até que prove a inocência. Então, contra isso a gente está fazendo esse abaixo assinado na internet. Já está com mais de 1000 assinaturas graças a Deus. As pessoas estão aderindo mesmo, as pessoas cegas estão se conscientizando de que isso é possível. Porque uma grande coisa que eu vejo nas pessoas deficientes visuais Ana, é que elas ficam achando assim que está bom demais. Nossa aquele livrinho braile que eu estou lendo, o mesmo há dez anos, já está bom demais para mim. Elas não parecem que não pensam que podem ter mais alguma coisa, que podem ter direito a mais alguma coisa. Então estamos estimulando essas pessoas e graças a Deus estão respondendo, não só as pessoas deficientes visuais, mas amigos familiares, simpatizantes, pessoas com outras deficiências, disléxicos, por exemplo, porque o livro digital, ele é importantíssimo para as pessoas disléxicas, então está sendo muito bacana.

Ana Paula:
É muito interessante isso mesmo. E eu dou o maior apoio, precisando da gente o que a gente puder fazer, nós estamos à disposição aqui, esse programa, esse espaço também está a disposição desse grupo para outras manifestações, para outras, outras notícias boas,
Naziberto: Que bom. E você sabe Ana que, só cortando um pouquinho você, você como advogada, a maioria das pessoas cegas que estão na universidade, os poucos que conseguem chegar lá fazem curso de direito. Então eu faço um apelo, usando seu programa, ate aproveitando e dizendo, como é que um advogado cego pode defender o direito de uma outra pessoa se ele não conseguir, se ele não puder defender o próprio direito dele Ana. Então, isso que eu perguntaria a você, você como advogada, como é que você pode defender o direito de outro se você não consegue defender o seu?

Ana Paula:
Então aí agora eu vou invadir a sua profissão, porque nós vamos ter que discutir as questões internas, as estruturas internas para a gente poder entender como que a pessoa se posiciona enquanto cidadão ou enquanto cidadã para exercício de direitos, e a gente sabe que em muitos momentos a escolha é pelo sucesso e não por criar uma crise, não por mudanças, é deixa do jeito que está para ver como é que fica, já está bom demais eu já estou conseguindo estudar, então não vamos falar que eu sou o problema, deixa ai eu não quero nem saber disso, até porque eu vou me identificar com o grupo. Então nós temos outras confusões psicológicas ai, ne?
Naziberto: É verdade. É se você for pegar pelo lado psicológico da pessoa, você arruma cobras e lagartos. Mas eu queria, eu queria fazer um apelo aos advogados cegos desse país. Que eles tomassem a frente disso, porque ninguém melhor para saber de direito, porque eu acho que curso de direito Ana tem que ser um curso fundamental de todo brasileiro.

Ana Paula:
Seria bom.
Naziberto: Mas infelizmente não é. Mas principalmente eles que sabem desse direito que por favor não permitam que isso continue, que essa situação continue desse jeito.

Ana Paula:
Mas a gente vai começar e vai continuar mudando Naziberto, a partir do momento que a gente começa a ter uma solução mesmo que seja diferente, mesmo que a gente pague o preço individualmente para que isso aconteça, Mudanças só acontecem assim, na base da pressão. Seja pressão individual, seja pressão social, seja pressão política, enfim eu acredito muito na pressão para mudança. Naziberto nosso tempo estourou eu queria que você fizesse suas considerações finais.
Naziberto: Olha Ana eu quero agradecer a você, ao seu programa, ao pessoal da universidade, aos seus ouvintes que nos ajudem nessa campanha também, nesse abaixo assinado. Queria agradecer mesmo. Que pensem que a leitura é a base para a educação de um país, é a base para que as pessoas comecem a refletir sobre a situação delas, que elas não sejam mais submissas. Eu gosto muito de uma frase de uma pessoa polêmica até, que foi o Paulo Francis, jornalista, ele dizia o seguinte: "Quem não lê não pensa e quem não pensa permanecerá para sempre servo". Então vamos pensar que sem leitura a gente vai continuar sendo servo de várias coisas. Então vamos lutar para que a gente possa no mínimo ler para poder sair dessa escuridão. Porque a cegueira ela não é uma escuridão, a falta de conhecimento é a escuridão.

Ana Paula:
Bom Naziberto eu agradeço muito a sua participação, eu te parabenizo ai por toda a sua luta e a gente coloca o espaço a disposição novamente. E eu lembro para o nosso ouvinte que o e-mail anapaulacrosara@gmail.com ( crosara com "s") está a disposição para sugestões críticas e dúvidas. Se vocês quiserem os contatos do Naziberto também podem mandar um e-mail para mim e também para o envio do texto transcrito para aquelas pessoas que não conseguem ouvir ou têm dificuldade de audição e que gostariam de também entender o que é que nós estamos fazendo nesse programa. Caso você não tenha acesso a internet pode ligar no meu escritório de advocacia (34) 3212 3866.

E até a próxima semana.

 

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