São Paulo, quarta-feira, 23 de agosto de 2017 - 10:50.

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800 amigos - embalados - animados e crescendo cada vez mais.

"Amigo é coisa pra se guardar, do lado esquerdo do peito... dentro do coração".
(Milton Nascimento)

Bom dia amigos,

E quantos amigos heim? Afinal, já somos 800!!! Oitocentas assinaturas individuais e institucionais já subscreveram nossa carta aberta às autoridades brasileiras com a incumbência de discutir a política do livro em nosso país. Com o poder de permitir ou não que um seguimento expressivo de pessoas tenham o direito à leitura.

Dentre essas pessoas marginalizadas do mercado editorial, peço licença para falar hoje aos amigos sobre a laurinha. Ela é uma linda menininha de 4 anos de idade. Esperta, brincalhona, faceira, que como qualquer outra criança dessa idade, às vezes enlouquece sua mãe, às vezes a emociona na mesma proporção. Eu disse antes que ela é uma das pessoas marginalizadas da leitura porque por um acaso do destino, a Laurinha nasceu cega, por conseguinte, recebendo desde os primeiros dias de vida um rótulo em sua testa. Nesse rótulo está escrito com letras garrafais: "Excluída".

É claro que durante sua vida, a Laurinha irá sentir bastante o que significa esse rótulo, em virtude de sua diferença para com o restante da sociedade, mas na maioria das vezes, ela e sua mãe, uma verdadeira leoa, guerreira, batalhadora por uma sociedade inclusiva, vem conseguindo e certamente continuarão as duras penas, driblar muitos dos estigmas e preconceitos com os quais elas se defrontaram e se defrontam cotidianamente. Um exemplo por acaso, é que a Laurinha não estuda em escola especializada em crianças cegas, as famosas escolas especiais. Ela estuda em uma escola para qualquer criança, afinal, sua mãe não a considera uma criança especial diante das outras, ela considera sim, como toda mãe, a Laurinha uma filha especial, e qual mãe desse Mundo não considera seu filho um ser especial? E ai da minha mãe não dizer que eu sou um filho especial!

Resumindo bastante a história, apenas digo que a Laurinha e sua mãe tentam sempre se incluir no dia-a-dia cotidiano do lugar onde vivem, se misturando com todas as outras pessoas, mostrando que a diversidade humana é assim, um aglomerado de pessoas diferentes umas das outras, cada qual com suas necessidades específicas, suas idiossincrasias, suas maneiras todas próprias de serem e estarem no Mundo. E olha que elas bem que conseguem na maioria das vezes essa mistura, essa heterogeneidade.

Entretanto, um dos piores momentos é esse que se aproxima, pois a Laurinha está começando a fase de aprender as primeiras letrinhas, as primeiras tentativas de juntar lé com cré, ir montando as palavras, as frases, entrando naquela fase em que toda criança principia os caminhos e descobertas da leitura. E quantos estímulos existem para crianças nessa idade! As livrarias estão abarrotadas de livros e mais livros infantis, com milhares de estorinhas, contos, brincadeiras, desenhos. Cores, um mundo encantado de magia e sonho se descortina para elas por entre as prateleiras de qualquer livraria minimamente bem estruturada por esse país a dentro.

As feiras e bienais de livros, que acontecem de tempos em tempos, propagandeiam pelos veículos de mídia impressa, televisiva, radiofônica, os milhares de lançamentos, novidades, incentivando que os pais levem seus filhos para que participem das inúmeras brincadeiras e eventos destinados a enlouquecer as crianças para que possam seduzir seus pais a lhes comprarem títulos e mais títulos ali a disposição e à mão de quem quer que seja.

Bem, aqui cabe uma correção, não é bem assim. Na verdade, quem quer não, mas apenas aqueles que tem o direito de querer. E a nossa Laurinha não está dentro dessa qualidade de querente. Querer ela quer, sua mãe quer, seus amigos querem, mas daí a ela ter o direito a isso vai uma distancia muito grande. Sendo assim, não pode querer, não deve querer, precisa esquecer.

Precisamos aqui fazer uma ressalva, afinal, ela tem um querer sim, mas desde que esse querer seja compatível com o querer daqueles que produzem a leitura para ela, uma leitura especial, porque consideram a Laurinha uma menina especial, apesar de que esse especial deles não é o mesmo especial da mãe da Laurinha, o especial deles é um especial trabalhoso, um especial pesado, um especial que de tanto especial que é, a maioria não gosta de cuidar, todos tem medo, ficam sem graça, cheios de dedos, sem jeito e dizendo que não sabem lidar com essa especialidade toda.. Uma especialidade que afasta a Laurinha das outras crianças especiais para suas mães, mesmo a Laurinha sendo especial para a sua mãe!

Na verdade, é um especial que define o seguinte: "Crianças especiais de um lado, crianças comuns de outro". Parece que agora ficou mais claro então, pois esse rótulo de criança especial que a Laurinha carrega aos olhos de alguns, nossa, mais um rótulo, desse jeito a testinha dela vai ser pequena demais, mas é um rótulo que serve para nomear o que é visto como anormal, sim, pois se esse especial se contrapõe ao comum, ao normal, então é anormal? Seria isso?

Porém voltando, dizíamos que a Laurinha tem alguma coisa para ler sim, pois sua mãe recebe de instituições especiais para crianças especiais, um livrinho braile que a Laurinha não consegue ler perfeitamente, pois ainda está aprendendo os primeiros pontinhos do código, mas não tem problema, quando ela aprender tudo terá muitos desses livros para ler, afinal, sua mãe recebe umas dez cópias por ano do mesmo livro. Sempre o mesmo, talvez porque as pessoas das instituições querem ter a certeza que a Laurinha vai decorar a estória. Desse jeito vai mesmo ?

Talvez a hipótese de que algumas instituições precisam desovar seus estoques para continuar mostrando números relevantes de sua produção, qualificando-se para continuarem recebendo as verbas públicas federais e os donativos sociais das pessoas que acreditam nessas instituições porque não precisam delas, talvez essa hipótese seja um equívoco de alguns radicais contrários a esse processo escandaloso. Talvez a intenção das instituições seja que a Laurinha realmente decore aquele livro. Tudo pode acontecer não é?

Alguns até acreditam em cegonhas trazendo bebês, Papai Noel, fada madrinha e etc., qual o problema?!

Como acreditamos que de boas intenções como estas o inferno está cheio, preferimos lutar pelo direito da Laurinha em não precisar depender dessas instituições e desse único livro, mas sim, apenas do mercado editorial de livros infantis e de quem todas as outras crianças dependem.

Queremos vê-la fazendo a maior festa e a maior bagunça em uma livraria em meio aos livros como todas as outras crianças, tendo a certeza que poderá saber o que eles tem de tão bom que alegram tanto seus coleguinhas que enxergam. Pois estes livros estarão em desenho universal, ou seja, acessível tanto para a laurinha quanto para todos os seus coleguinhas.

E isso vai acontecer um dia Laurinha, pode ter certeza. Por isso estamos nessa luta.

Se você ficou surpreso com a história da laurinha, saiba que ela é apenas uma criança cega desse Brasil que tem outras milhares iguais e ao mesmo tempo diferentes dela. Será que podemos fazer algo para ajudá-las?

Se você acredita que sim, nós também, então pedimos a gentileza de juntar-se a nós nessa carta aberta que segue abaixo e que está tentando chamar a atenção para essa situação calamitosa a fim de que alguma coisa seja feita urgentemente para modificá-la.

Cordialmente,

Naziberto Lopes.
Coordenador do Movimento pelo Livro e leitura no Brasil.

 

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